Terras raras, minerais críticos e estratégicos: Potencial elevado e (ainda) pouca produção

Elementos que são conhecidos há muito tempo, mas tinham pouca aplicabilidade, com a evolução tecnológica e as novas características físico-químicas detectadas, foram ganhando espaço com novas possibilidades de uso. São elementos no grupo de minerais críticos e estratégicos, chamados de terras raras (ETRs), que incluem minerais que têm na China o maior usuário, com centro de pesquisas para processamento e para aplicação e desenvolvimento desses elementos.

Entre as aplicações destacam-se imãs permanentes utilizados em turbinas eólicas, motores elétricos, semicondutores e dispositivos de alta performance; sensores de movimento e velocidade; dispositivos eletrônicos como notebooks, smartphones, câmeras e discos rígidos; catalisadores automotivos e baterias de veículos elétricos; e tecnologias militares e aeroespaciais.

A variedade de usos avança em consonância com a evolução tecnológica que também se reflete na calibragem mais fina dos equipamentos e nas novas formas de extração desses minerais com uso de substâncias menos agressivas ao meio ambiente contribuem para tornar o processo de separação menos lento e ampliar o uso desses elementos. Hoje, processos automatizados e não poluentes estão sendo buscados, como utilização de nanopartículas magnéticas modificadas com um agente químico que captura as terras raras que estão misturadas ao minério, colocado em um pequeno reator.

Em âmbito global, o Brasil se destaca no cenário com jazidas expressivas. Enquanto a China situa-se como o maior produtor mundial de terras raras, seguida pela Austrália e Estados Unidos, o Brasil tem potencial de assumir posição expressiva no ranking, a exemplo do que já aconteceu entre o século XIX e meados do século XX, período em que o País era o maior exportador de monazita.

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) é o órgão do governo federal responsável pelo mapeamento geológico, produção e disseminação do conhecimento geocientífico, que inclui a avaliação do potencial mineral do território nacional. No contexto dos Elementos Terras Raras (ETR) e demais minerais estratégicos, o SGB atua na identificação de áreas com potencial mineral, com a aquisição e processamento de dados geológicos, geofísicos e geoquímicos, úteis para subsidiar a avaliação de viabilidade técnica e econômica de recursos minerais.

Lucy Takehara Chemale, pesquisadora em Geociências no Serviço Geológico do Brasil (SGB), acredita que, em termos de potencial, “o Brasil se equipara à China. Pode até ter reservas maiores do que a China, mas estamos produzindo muito pouco. Em 2024, por exemplo, o País produziu apenas 20 toneladas de terras raras, menos de 1% da produção mundial, que foi de 390 mil toneladas.” Nesse sentido, dominar a cadeia produtiva desses elementos é sinônimo de soberania tecnológica.

Ampliar o conhecimento geológico e transformar o enorme potencial geológico dos recursos minerais estratégicos em reservas minerais explotáveis e bem conhecidas é uma necessidade para que o País assuma seu papel de destaque em âmbito global. Para isso, além de descobrir novas ocorrências é fundamental superar limitações tecnológicas e logísticas”, afirmou.

Chemale ressalta, ainda, que a importância desses elementos é inversamente proporcional ao mercado, que “é muito pequeno, porque para você melhorar a qualidade dos aços, por exemplo, são necessários poucos gramas em tonelada de aço”.

Reservas e produção

As reservas chinesas são ao redor de 44 milhões de toneladas e computa produção anual de 140.000 toneladas, algo próximo a 85% da necessidade mundial de ETRs refinados. Enquanto o Brasil, com 23% das reservas produz, anualmente, não mais do que 1.000 toneladas, sendo que a maior parte da atividade mineradora nacional na área ainda depende de investimentos estrangeiros.

Exemplo do potencial brasileiro de ETRs são vários, mas, usando dados do SGB, em especial da publicação “Uma Visão Geral do Potencial de Minerais Críticos e Estratégicos do Brasil”, o Brasil é o maior detentor global de reservas de nióbio (94%) – com 16 milhões de toneladas. No ranking global, é o segundo maior em reservas de grafita, com 74 milhões de toneladas (26%), e de terras raras, com 21 milhões de toneladas (23%), e a terceira maior reserva global de níquel global, com 16 milhões de toneladas (12%) das reservas mundiais.

A maior parte dos recursos estimados de Elementos Terras Raras (ETRs) no Brasil está concentrada, principalmente, nos estados de Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia, além de Sergipe. Esses estados abrigam os principais tipos de depósitos com potencial econômico de ETRs, conforme levantamentos do SGB, da Agência Nacional de Mineração (ANM) e de estudos técnicos consolidados.

Como parte do Projeto de Avaliação do Potencial de Terras Raras no Brasil, inserido na linha de atuação “Minerais Estratégicos para Transição Energética”, dentro da Ação do Programa de Aceleração do Crescimento-PAC do governo federal, o SGB em 2025, iniciou atividades de busca de ETRs nos Estados de Goiás e Tocantins (Província Estanífera de Goiás), Minas Gerais (Província Alto Paranaíba), Bahia (Província Jequié e região de Prado) e Paraná, São Paulo e Santa Catarina (Vale do Ribeira).

Os principais distritos minerais

Araxá (MG) é onde está a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras do Brasil, os minerais com terras raras nas rochas alcalinas são apatita e calcita. Além disso, na região de Poços de Caldas (MG), há diversas empresas de mineração pesquisando para terras raras e já identificaram recursos de 950 milhões de toneladas com teor de 0,25% de TREO. As pesquisas também indicam ocorrências de terras raras no município de Tapira (MG), associado às mineralizações de fosfato, nióbio e titânio.

No estado de Goiás, com recursos estimados em 910 milhões de toneladas, a existência de uma mina ativa de elementos terras raras na cidade de Minaçu (GO) se destaca, por ser a primeira mina fora da Ásia a operar um depósito de argila iônica, pois, até então apenas a China produzia terras raras em depósitos desse tipo. Esse tipo de mineralização é considerado a principal fonte de terras raras pesadas do mundo e que possui o processo de extração de ETR com maior rentabilidade.

Ainda no Estado goiano, mais especialmente em Nova Roma (GO), há um projeto com recursos de terras raras estimados em 168,1 milhões de toneladas. Além disso, há ocorrências nas regiões de Catalão (GO) e em outros corpos graníticos da Província Estanífera de Goiás (GO).

Seis Lagos, localizado a 64 km a nordeste do município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, as ocorrências sinalizam a ocorrência de um depósito de nióbio com altas concentrações de terras raras, estimado em 43,5 milhões de toneladas. Contudo, como a região integra uma reserva legal indígena, há restrições legais que impedem a exploração.

Já no depósito de Pitinga, no município de Presidente Figueiredo (AM), a cassiterita é o principal bem mineral desse distrito, que também identifica a presença de xenotima, gagarinita, niobidatos e fluocerita, mas ainda inexiste exploração dedicada.

Bauxita e mineralizações de alto teor de terras raras (11,2% de TREO) associados a outros bens minerais como nióbio, urânio, tântalo, escândio, bauxita e gálio no Projeto Pelé, formam o depósito do Complexo de Jequié (BA). Esse depósito, pesquisado pela Brazilian Rare Earth, tem mineralização associada à rocha com teor de até 40,5% de TREO no Projeto Velhinhas e em rocha alterada, denominada areais de monazita que chegam a teor de 7,9%.

E mais: depósito de monazita em minerais pesados da planície costeira é encontrado na região baiana de Prado e na porção norte de Sergipe. Neste segundo local, o depósito está localizado em antigos cordões litorâneos e dunas do delta do Rio São Francisco. Há recursos JORC totais de 196 milhões de toneladas com 0,4% de concentrado de monazita.

Descobertas recentes

Segundo dados da ANM, a principal jazida brasileira de terras raras, que, com cerca de 21 milhões de toneladas, situa o País como detentor de terras raras no mundo, atrás apenas da China, está localizada em Araxá (MG).

Explicando as recentes descobertas, a pesquisadora em Geociências do SGB lembra que os ETRs podem ocorrer em diferentes associações geológicas e frisa a diversidade brasileira nesse sentido: “São diferentes ambientes geológicos favoráveis para geração de depósitos, influenciados pela formação de perfil de solo em clima tropical, mas a exploração também precisa ser economicamente viável.”

Em setembro, a australiana St George Mining divulgou a descoberta de terras raras de alto teor e nióbio em seu Projeto Araxá. De acordo com o que foi noticiado pela empresa, as concentrações de terras raras são maiores do que a estimativa inicial deste recurso mineral, e entre os elementos encontrados estão samário, elemento usado na produção de ímãs-cobalto que podem ser usados na fabricação de equipamentos militares como jatos F-35.

Além disso, um dos maiores levantamentos geológicos do País nos últimos anos, divulgado no Informe Técnico nº 27 do SGB, publicado em junho de 2025, apresenta os resultados do Projeto Geologia e Potencial Mineral da Borda Oriental da Bacia do Parnaíba. A pesquisa abrangeu áreas nos estados do Piauí e Ceará, com foco nas formações Itaim, Pimenteira e Longá — unidades geológicas do período Devoniano. Nelas foram identificadas concreções fosfáticas e arenitos com níveis excepcionais de fósforo (P2O5), elementos terras raras e urânio.

Entre as informações que o documento apresenta estão 39 novas ocorrências minerais ricas em elementos terras raras (ETRs) e urânio na borda oriental da Bacia do Parnaíba (PI), segundo estudo conduzido pelo SGB. Os dados indicam que a região pode abrigar um grande potencial para esses minerais críticos e estratégicos, essenciais para a transição energética, segurança alimentar e o avanço tecnológico global.

Segundo o levantamento, as concreções fosfáticas da região apresentaram teores de fósforo entre 16% e 27%, e elementos terras raras com média de 0,4% e valor máximo anômalo de 2,3% em uma das amostras.

Amostras de arenitos também se destacaram, com teores médios de elementos terras raras em torno de 0,2% e máximos de até 0,4% que, mesmo com baixos níveis de fósforo, indicam enriquecimento mineral independente da matriz fosfática, possivelmente associado à presença de minerais pesados oriundos de fontes ígneas ou metamórficas, e à ação de processos hidrotermais ou autigênicos — índice que coloca a Bacia do Parnaíba entre as mais ricas do mundo nesse tipo de ocorrência.

O urânio, por sua vez, foi encontrado em concentrações que variam de 9 a impressionantes 1.270 ppm — muito acima da média dos principais depósitos mundiais. Tais teores, segundo o relatório, tornam viável a recuperação desse elemento mesmo em cenários econômicos desafiadores.

E mais: Em agosto, divulgação de descoberta em Caçapava do Sul (RS) revela concentração de terras raras até seis vezes superior à da China. Resultado de pesquisa científica liderada por universidades brasileiras, o foco principal está nas rochas de carbonatito, especialmente na formação conhecida como Picada dos Tocos, rica em minerais estratégicos como apatita, pirocloro, monazita-(Ce) e aeschynita-(Ce). Também foram identificadas concentrações importantes de nióbio e tântalo, outros elementos de alto valor industrial.