Entrevista | Presidente da CBPM: A Bahia também tem mineração, e muita

E a CBPM dá sua contribuição para que a atividade seja reconhecida e se expanda

A Bahia, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) daquele estado, ocupa hoje a 4ª posição no ranking nacional de produção mineral comercializada, com faturamento de R$ 10,1 bilhões em 2024. Abrigando grandes empresas mineradoras com perfil diversificado, a capital baiana neste ano recebe a Exposibram e mostra porque a sua atividade minerária é referência no cenário nacional pela variedade de minerais produzidos e também pelo número de empregos formais diretos gerados pela atividade minerária: mais de 38 mil.

Espaço de conexão e diálogo, que conecta investidores, sociedade, governos, startups, universidades e empresas, criando oportunidades para a troca de conhecimento, inovação e parcerias estratégicas, a Exposibram 2025 acontece em Salvador (BA) e, para as instituições vinculadas à mineração baiana, será possível mostrar que mineração e sustentabilidade podem caminhar juntas, que o setor pode gerar emprego, renda e desenvolvimento social, e que a Bahia é capaz de consolidar uma mineração moderna, inclusiva e responsável, com projetos inovadores que estão transformando a realidade local.

Para falar sobre a mineração baiana, a revista Máquinas & Equipamentos ouviu Henrique Carballal, presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM).
Confira e boa leitura!

M&E – Quais os objetivos da CBPM e como vêm evoluindo sua atividade?
Carballal –
O objetivo central da CBPM, ao longo de suas mais de cinco décadas, é ampliar o conhecimento geológico do território baiano, identificando recursos minerais e fomentando seu aproveitamento de forma a atrair o investimento privado. A evolução de sua atividade é marcada por um forte investimento em tecnologia e inovação. Hoje, a companhia utiliza plataformas digitais de geoinformação e análise de dados para tornar a pesquisa mineral mais precisa, sustentável e transparente, além de democratizar o acesso a essas informações através de ferramentas como a Litoteca Digital e o site Minera Bahia.

M&E – Quais as ações da CBPM vinculadas à promoção de uma mineração sustentável? E os planos para os próximos anos?
Carballal – A CBPM atua ativamente no fomento a uma mineração sustentável e inclusiva, apoiando projetos alinhados às melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Um exemplo é o Projeto Ferro Verde, desenvolvido em parceria com a Brazil Iron, que posiciona a Bahia como referência nacional na produção de aço verde, fortalece a cadeia produtiva do setor e contribui de forma decisiva para a descarbonização da indústria siderúrgica brasileira.
O projeto permitirá que a Bahia passe a produzir Ferro Briquetado a Quente (HBI), considerado essencial para a transformação da indústria mundial do aço. Essa tecnologia permite substituir fornos a carvão, altamente poluentes, por fornos elétricos alimentados por energia renovável, capazes de reduzir em até 99% as emissões de dióxido de carbono, colocando a Bahia na fronteira da transição energética do setor siderúrgico.
Outra iniciativa emblemática é a parceria com a Homerun Brasil, voltada para o aproveitamento responsável de areia silicosa em Belmonte, na região Sul. O projeto trará a Bahia a primeira fábrica de vidro solar fora da China e garantirá que o estado se torne produtor de painéis fotovoltaicos de alta performance, fortalecendo a cadeia das energias renováveis, estimulando a industrialização regional e gerando empregos qualificados.
Já em parceria com a Galvani, a CBPM desenvolveu o projeto que tornará a Bahia independente da importação de fertilizantes fosfatados, insumo essencial para a agricultura. O projeto adota técnicas sustentáveis, como o reaproveitamento da água utilizada no processo produtivo, a recuperação de áreas mineradas com espécies nativas, o controle rigoroso de emissões de poeira e efluentes, e o uso racional dos recursos naturais. Além disso, o projeto investe em programas sociais e educacionais voltados às comunidades locais, fortalecendo o desenvolvimento regional e contribuindo para a segurança alimentar e a economia circular.
Os planos para os próximos anos seguem na direção de atrair e apoiar novos projetos que aliem desenvolvimento socioeconômico, inovação e sustentabilidade, consolidando a Bahia como referência nacional em mineração responsável e comprometida com o futuro do planeta.

M&E – Para a CBPM, ESG é mais do que uma sigla. Como essa preocupação se expressa desde a pesquisa até o acompanhamento das empresas licitadas?
Carballal –
Muito além da pesquisa mineral, a CBPM atua hoje no fomento à mineração sustentável e inclusiva, comprometida com as melhores práticas ambientais, sociais e de governança. No pilar ambiental, apoiamos iniciativas como o Projeto Ferro Verde, da Brazil Iron, que consiste na produção de Ferro Briquetado a Quente (HBI), considerado um insumo essencial para a transformação da indústria mundial do aço. O projeto vai possibilitar a substituição de fornos a carvão, altamente poluentes, por fornos elétricos, capazes de reduzir em até 99% as emissões de dióxido de carbono. Outro destaque é o projeto desenvolvido em parceria com a Homerun Brasil, que vai instalar na Bahia a primeira fábrica de vidro solar fora da China, utilizando a areia silicosa de Belmonte para a produção painéis fotovoltaicos de alta performance. Esse projeto fortalece a cadeia de energias renováveis e contribui para que a Bahia possa atender às demandas da transição energética global.
No pilar social, destacamos o Projeto Irecê, desenvolvido em parceria com a Galvani, que já destinou mais de R$ 11 milhões em investimentos sociais para os municípios de Irecê e Campo Alegre de Lourdes, garantindo benefícios concretos para a população em áreas como cultura, esporte, educação, mobilidade urbana e inclusão social. Outro destaque é o projeto Garimpo Legal, desenvolvido pela CBPM em parceria com a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), que tem como objetivo promover a qualificação técnica, a formalização e o fortalecimento da atividade garimpeira no estado da Bahia. A iniciativa busca garantir condições dignas de trabalho, segurança jurídica, acesso à informação e práticas ambientalmente responsáveis para os garimpeiros.
Já no pilar da governança, atuamos na qualificação da mão de obra local e na implementação de políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), tanto no nosso quadro de colaboradores quanto nos projetos desenvolvidos em parceria com a iniciativa privada.

M&E – Nesses 52 anos de história, quais ganhos para o setor minerário merecem ser destacados? Quais contribuíram para a evolução da mineração brasileira como um todo?
Carballal –
O maior ganho proporcionado pela CBPM em sua história foi a consolidação de um vasto e detalhado conhecimento geológico sobre o território baiano, tornando a Bahia um dos estados mais bem estudados do país. Esse acervo de dados e informações geológicas reduziu significativamente os riscos para os investidores e tornou o estado um dos alvos mais procurados para pesquisa mineral no Brasil. Essa atuação foi fundamental para descobrir novos depósitos, diversificar a produção mineral da Bahia e, consequentemente, atrair grandes empresas, contribuindo para posicionar este estado como protagonista no cenário da mineração nacional.

M&E – Quais os casos de sucesso que podem ser destacados, sejam pelo porte, sejam pelas peculiaridades?
Carballal –
A Bahia possui diversos casos de sucesso na mineração, que refletem tanto o porte quanto a inovação do setor no estado. Pelo porte e relevância, destacam-se as operações de grandes empresas parceiras da CBPM, como a Brazil Iron, com o Projeto Ferro Verde; a Homerun Brasil, responsável por trazer à Bahia a primeira fábrica de vidro solar fora da China; a Atlantic Nickel, que conduz a operação da maior mina de níquel sulfetado a céu aberto da América Latina; e a Galvani, com o Projeto Irecê, que tornará a Bahia independente da importação de fertilizantes fosfatados e garantirá que o estado atenda até 30% da demanda das regiões Norte e Nordeste do país.
Esses casos mostram que é possível aliar alta performance econômica, inovação tecnológica e responsabilidade socioambiental, colocando a Bahia como referência nacional e internacional em mineração sustentável e inclusiva.

M&E – Que minerais são produzidos na Bahia? A que mercados/aplicações se destinam?
Carballal –
A Bahia possui a produção mineral mais diversificada do Brasil. Das 93 substâncias minerais produzidas no País, 47 vêm da Bahia, onde mineração está presente em 48% dos municípios. Muitos desses minerais são estratégicos e essenciais para a transição energética global. Níquel, cobre, cobalto, ferro, titânio, vanádio, grafita e terras raras, por exemplo, são fundamentais para a produção de baterias, veículos elétricos e tecnologias de energia renovável.
Além disso, o estado é o único produtor de vanádio e urânio do Brasil e figura entre os primeiros colocados na produção de 18 substâncias minerais.

M&E – Como o Brasil se posiciona no mercado global com esses minerais?
Carballal –
O Brasil é um importante ator na mineração mundial, figurando consistentemente entre os maiores produtores globais de minério de ferro, nióbio (onde é líder absoluto) e diversas outras commodities. Com minerais produzidos em larga escala na Bahia, como níquel, vanádio e cobre, o país se posiciona como um fornecedor relevante e estratégico no mercado internacional. A produção baiana, por ser a única no país para minérios como vanádio e urânio, reforça a posição estratégica do Brasil como detentor de recursos essenciais para indústrias de alta tecnologia e para a transição energética, contribuindo para a segurança das cadeias de suprimentos globais.

M&E – Em que áreas da atividade como um todo, desde pesquisa até embarque/logística, as máquinas são utilizadas na produção minerária baiana?
Carballal –
Na etapa de pesquisa, utilizam-se equipamentos de sondagem para estudo do subsolo. Na extração e beneficiamento, o trabalho pesado fica a cargo de escavadeiras, caminhões de grande porte, britadores e plantas de processamento. Por fim, na logística e embarque, máquinas como pás-carregadeiras, guindastes, além de toda a infraestrutura de caminhões, trens e navios, são cruciais para escoar a produção até os portos e clientes finais.

M&E – Como vem evoluindo a atividade mineradora no estado?
Carballal –
A atividade mineradora na Bahia vive um ciclo de expansão sem precedentes, impulsionado pela crescente demanda por minerais críticos e estratégicos, essenciais à transição energética. Essa evolução não é apenas quantitativa, mas também qualitativa. O setor tem migrado de um modelo puramente extrativo para um que incorpora inteligência, dados e alta tecnologia, tornando a pesquisa mais precisa e as operações mais eficientes. Além disso, a sustentabilidade e os princípios ESG se tornaram pilares centrais, buscando-se uma mineração que gere desenvolvimento social e econômico, com responsabilidade ambiental e inclusão das comunidades locais.

M&E – Quais os gargalos da mineração no estado e quais os caminhos para a solução?
Carballal –
Um dos principais gargalos históricos para um setor que movimenta grandes volumes como a mineração é a infraestrutura de logística e escoamento da produção. Os principais caminhos para superar esse desafio são a finalização das obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e do Porto Sul, em Ilhéus. Juntos, esses dois projetos criarão um corredor logístico moderno, mais rápido, econômico e sustentável, que irá ampliar significativamente a capacidade de escoamento da produção mineral baiana para o mercado global.