Por mais que o cenário mostre defasagem da indústria brasileira de máquinas e equipamentos frente à que se faz presente nos países hiperindustrializados e seja marcado por situações diversas que dificultam investir na implementação das tecnologias habilitadoras para a indústria 4.0, a evolução das máquinas é um processo contínuo, que caminha em consonância com a evolução intelectual e o desenvolvimento de técnicas e tecnologias, que tornam as máquinas mais eficientes, rápidas e sofisticadas.
No Brasil, a transformação digital do chão de fábrica caminha ininterruptamente, embora nem sempre no ritmo esperado e, por que não, desejado. A realidade mostra que a maioria das indústrias do setor integram às suas máquinas serviços de manutenção preditiva e monitoramento remoto e cada dia mais ampliam a venda de produtos para a oferta de soluções de valor agregado.
As expectativas são promissoras, pelo menos na visão de Angela Gheller, diretora de produtos para Manufatura da Totvs, para quem este ano “desponta no horizonte como um marco para a manufatura brasileira. O que antes víamos como tendências da indústria, agora se consolida como pilares estratégicos para a competitividade e a resiliência do setor. A transformação digital, antes vista como meta, hoje é a base indispensável da nova indústria, agora impulsionada por inteligência artificial, novos modelos de negócio e uma consciência socioambiental cada vez mais presente.”
Ao listar a maturidade da digitalização como primeiro ponto a ser observado nessa jornada e levando em conta dados recentes apresentados pelo Índice de Produtividade Tecnológica (IPT) de Manufatura, que mostram que, “embora muitas empresas tenham iniciado sua jornada, ainda existe um abismo entre a automação básica e uma operação verdadeiramente inteligente e conectada”, Gheller reforça que “em 2026, a pressão competitiva não mais permitirá que as indústrias permaneçam nos estágios iniciais. A meta será alcançar uma maturidade que integre o chão de fábrica (MES) ao sistema de gestão (ERP) de forma fluida, gerando dados que não apenas informem, mas que alimentem sistemas de decisão autônomos. A lição de casa de organizar e digitalizar processos será pré-requisito para qualquer avanço.”

Transformando produtos em serviços e dados em soluções
Entendendo que a prestação de serviços deriva da atividade industrial, a Jacto está entre as indústrias de máquinas e equipamentos envolvidas com sua metamorfose digital, agregando à fabricação de hardware a atividade de provedora de serviços digitais. Guilherme Panes, gerente de Desenvolvimento de Negócios da empresa, destaca que a “servitização” é a chave para a sobrevivência no mercado global.
“A tecnologia nos permite ir para o modelo de servitização. Em alguns casos, o cliente não quer a máquina, ele quer o hectare pulverizado com precisão. E a IA é quem garante que esse serviço seja executado com a máxima eficiência”, reforça o executivo da Jacto, ao frisar que não deve ser temida a substituição do trabalho humano, pois “a capacidade do ser humano pode ser melhorada significativamente pela tecnologia. A IA não é sobre ChatGPT ou sobre algoritmos. A IA é sobre uma estratégia de negócio que tem um roadmap, é uma ferramenta que estica o portfólio para drones, colhedoras e serviços de precisão no campo”, define Panes, alertando para a importância dos dados: “O dado é o novo petróleo, mas petróleo bruto não serve para nada. O nosso trabalho é refinar esse dado para que ele vire uma decisão assertiva no campo”.
Baseando-se na trajetória da Jacto no universo da tecnologia, que “não é recente, mas vive hoje um de seus capítulos mais transformadores com a consolidação da IA e da conectividade no campo”, o executivo lembra que “o que começou nos anos 1980 com a eletrônica embarcada evoluiu para um ecossistema digital, no qual a máquina deixa de ser apenas um hardware para se tornar uma provedora de dados e serviços. Para isso, é fundamental ter bons dados e treinar as pessoas.”
Ao longo dessas décadas, reforça Panes, a evolução foi gradual, iniciada no monitoramento básico e atingindo a telemetria em tempo real: “Começamos no passado monitorando se a máquina estava ligada ou desligada. Depois passamos a monitorar se ela estava trabalhando ou não. Hoje, monitoramos a saúde de cada componente, utilizando modelos preditivos para evitar paradas não planejadas, uma vez que nosso foco é a disponibilidade da máquina. Através de algoritmos desenvolvidos em parceria com o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA-UFG), liderado pelo professor Iwens Sene, a Jacto consegue antecipar falhas antes mesmo que o operador perceba o problema.”
Hoje, a Jacto usa IA para entender padrões de comportamento de componentes e dizer ao cliente: “Este sensor ou esta peça vai falhar nas próximas 50 horas. Vamos trocar agora para você não parar na colheita”, detalha Panes, garantindo que essa aplicação prática resolve um dos maiores gargalos do agronegócio, assim definidos por ele: “O custo altíssimo da máquina parada durante as janelas críticas de plantio e colheita.”
Entre os resultados da maturidade tecnológica da empresa e da certeza de que o futuro da modernização industrial brasileira passa obrigatoriamente pela capacidade de processar variáveis em tempo real, estão a criação de uma área focada exclusivamente em serviços e agricultura digital, assim como de uma IA Generativa integrada ao seu ecossistema digital. Esta IA utiliza a base de dados que inclui manuais de instruções, materiais de treinamentos e patentes para auxiliar os 60 atendentes da Torre de Experiência do Cliente a darem respostas rápidas, com ganhos de tempo que passaram de 10 minutos para 30 segundos.
Panes destaca, ainda, o desenvolvimento de um pulverizador autônomo para culturas perenes, como citrus, que combina IA e escaneamento das plantas com sensor a laser para aplicação em taxa variável. A tecnologia permite que um operador controle remotamente até quatro equipamentos conectados ao veículo de apoio.
A obsessão por dados faz parte do DNA
Governança, inovação e melhoria contínua em pessoas e processos formam o DNA da WEG. Para Marcelo Pinto, gerente geral da Divisão de Soluções Digitais da WEG, esses itens fundamentam o WEG Management System (WMS) e o WEG Innovation System, que somam mais de quatro décadas de desenvolvimento até formar um conglomerado global de 66 parques industriais e 49 mil colaboradores.
Nessa história, a IA está presente na base e na tomada de decisões, pois, como assegura Pinto, “a obsessão por dados vem desde a época analógica, pois não há como melhorar sem medir nem gerar indicadores se não há cultura de análise gráfica e de fazer melhoria contínua. Essa base cultural analógica criou não só a coleta de dados, mas a tomada de decisão com base em dados de qualidade.” Os resultados promovem a redução das perdas rumo ao desperdício zero; para isso, mais de 2.000 sensores de IoT trabalham nas plantas da WEG em território nacional.
As conquistas internas são levadas ao mercado por meio de ferramentas que reduzem a complexidade do ingresso na indústria 4.0. Segundo Pinto, é possível conectar até máquinas antigas à nuvem em poucas horas utilizando sensores IoT e integração com inversores, tornando real a mensagem de que “a digitalização não é um destino, mas uma jornada contínua para tornar a indústria brasileira mais rentável e sofisticada.”
“O objetivo é transformar qualquer equipamento, de uma motobomba a uma ponte rolante, em uma máquina inteligente capaz de gerar dados para novos modelos de negócio”, resume o gerente, concluindo que: “Aumentamos a complexidade da nossa manufatura, agregamos mais valor aos nossos produtos e viabilizamos mais valor para os clientes.”

IA amplia precisão e agiliza produção de máquinas
Ganhos sensíveis com IA também integram os resultados da AGCO, e respondem pela ampliação de seu uso nas operações industriais da empresa, via tecnologia desenvolvida pela equipe de Engenharia de Manufatura, que conseguiu reduzir em 90% o tempo de análise de alterações de engenharia de produto.
Giuliano Scapin, supervisor de manufatura da AGCO, informa que a ferramenta utiliza IA para gerir a introdução de alterações, desde parafusos até motores. “O sistema analisa os componentes cruzando informações sobre locais de montagem, postos de utilização e armazenagem. A partir desses dados, identifica qual área da fábrica receberá a respectiva informação de melhorias para análise, com ganhos expressivos, pois, antes, o trabalho era manual, feito por dois engenheiros, e consumia um dia inteiro. Com a IA, ganhamos eficiência estratégica, pois agora a tarefa é realizada em cerca de duas horas.”
Além disso, a AGCO desenvolve uma ferramenta baseada em dados internos para estruturar informações sobre o desempenho das máquinas nas primeiras 50 horas de uso. O sistema reúne informações históricas para facilitar a busca de soluções por técnicos e concessionários. A partir da análise dessas informações, o objetivo da equipe é formar um banco de dados que permita visualizar com mais clareza os pontos que já possuem solução registrada e aqueles em que é possível avançar em melhorias. Aqui, o passado também dá sua contribuição, pois o sistema reúne informações históricas de diferentes modelos e componentes, indicando a existência de encaminhamentos em andamento e aqueles em que o processo ainda não foi iniciado.
A proposta, assegura Scapin, “é estruturar uma base que possa ser consultada para facilitar a busca de soluções, incluindo informações de diferentes regiões e diferentes contextos. A aplicação tem como referência o conceito de assistente virtual, organizando os dados de forma que técnicos, concessionários e analistas identifiquem de maneira mais rápida quais etapas seguir diante de determinadas situações.” Neste caso, a IA dá sua contribuição ao reforçar uma abordagem mais eficiente e sustentável no processo produtivo.
Presentes na jornada da companhia há alguns anos, apoiando a evolução da manufatura e da experiência do cliente, as soluções baseadas em inteligência artificial, em 2024, passaram a estimular estudos para aplicação de inteligência artificial específicos na linha de produção, momento em que a equipe de Engenharia de Manufatura passou a desenvolver soluções voltadas à automação do fluxo de alterações técnicas e à análise inteligente de dados de desempenho das máquinas.
Empresa global, a AGCO aplica no Brasil as mesmas estratégias de suas plantas internacionais, com foco na modernização consistente, com expansão de iniciativas voltadas à digitalização e à modernização dos processos, ampliação da automação e da análise inteligente de dados em operações industriais, ampliando eficiência e agilidade.
Essas iniciativas não seguem um cronograma pré-definido, mas, sim, uma evolução consistente focada na validação rigorosa das soluções em desenvolvimento. “Nosso objetivo é consolidar cada etapa com segurança e qualidade, garantindo resultados sólidos e sustentáveis antes de avançar para novas fases”, alega Scapin, citando que projetos em desenvolvimento relacionado a segurança, ergonomia e otimização de processos produtivos estão incorporando IA, em consonância com a visão da empresa de inovação contínua.
Os ganhos mensurados com a digitalização e mais especificamente com a aplicação da IA na linha de produção são diversos, tanto internamente à companhia quanto diretamente junto aos usuários. No primeiro caso, estão redução do tempo, minimização retrabalho e desperdícios, assim como fortalecimento da qualidade dos processos. Somam-se a esses aspectos “metas qualitativas, com foco em consolidar um modelo robusto que suporte melhorias contínuas, impulsione a automação e gere valor para toda a cadeia produtiva”, enumera o supervisor, enfatizando que o uso de IA contribui diretamente para a sustentabilidade industrial e promove forte integração entre áreas por meio do cruzamento de dados de montagem, armazenagem, uso e histórico técnico.”
Na outra ponta, os benefícios percebidos pelos usuários da marca estão diretamente ligados à melhoria da qualidade e à agilidade no suporte técnico. “Com a aplicação de IA, conseguimos estruturar dados de forma mais eficiente, permitindo decisões técnicas mais rápidas e assertivas”, comenta Scapin, e conclui: “A criação de um banco de dados inteligente, possibilita identificar soluções com mais rapidez e antecipar melhorias. Na prática, isso se traduz em produtos com maior qualidade, suporte técnico mais ágil e uma experiência superior para clientes e concessionários.”
Independentemente da área de atuação e do porte da empresa, os projetos das indústrias de máquinas e equipamentos estão sendo executados com rigor estratégico, demonstrando que, para a indústria brasileira de máquinas e equipamentos, a transformação digital não é mais um projeto isolado, mas o alicerce da sobrevivência econômica. Ao converter a maturidade tecnológica em rentabilidade e valor para o cliente, essas empresas pavimentam o caminho para que o Brasil supere seus gargalos históricos e se consolide como um player de alta complexidade na nova era industrial.
