Criar cadeia de valor doméstica exige investimentos

Afonso Sartorio, líder de Energia e Recursos Naturais da EY, alerta que o domínio da China na produção e no processamento em âmbito global desses elementos “gera riscos geopolíticos e de fornecimento. Nesse contexto, os primeiros projetos comerciais no Brasil, como o da Serra Verde, ampliam a relevância estratégica do País. Elas oferecem aos compradores globais uma fonte alternativa, mais segura e com menor pegada de carbono. Além disso, representam oportunidade única de desenvolver uma cadeia de valor doméstica, incluindo etapas de beneficiamento e separação, o que pode gerar empregos de alta qualificação e maior agregação de valor local.”

Entretanto, a produção brasileira de minerais críticos e estratégicos é muito incipiente: apenas algumas dezenas de toneladas por ano, o que equivale a menos de 1% do mercado global, afirma Sartorio, recomendando a necessidade de se viabilizar “mais projetos e investir na cadeia de valor para que o Brasil seja competitivo neste cenário a médio-longo prazo e capture um valor agregado maior que apenas exportar minério bruto. Para isso, será fundamental estruturar políticas de fomento, destravar licenciamento e atrair investimentos em tecnologia de processamento.”

A recomendação do líder de Energia e Recursos Naturais da EY é a de que o papel do Brasil nesse contexto “cresce em importância quando se considera as descobertas mais recentes em território nacional, mais especificamente no Estado mineiro e no Rio Grande do Sul, no segundo semestre de 2025.”

O potencial dos estoques brasileiros desses elementos, para Mateus Figueiredo, sócio da KPMG, é comprovado pela geração de receitas. Citando dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Figueiredo comenta que com os estoques em produção, no primeiro semestre deste ano, o faturamento do segmento de minerais críticos foi de R$ 21,6 bilhões, o que corresponde a uma expansão de 41,6% na comparação anual, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

De acordo com o consultor, “o valor do faturamento no setor de minerais reforça o quanto a indústria tem uma presença na economia. Como exemplo, temos as discussões recentes sobre a concentração na produção de terras raras, seu alto potencial econômico e as tensões geopolíticas associadas a tal concentração.”

Com a segunda maior reserva conhecida, o Brasil não tem tradição na mineração de minerais críticos e estratégicos e possui substancialmente projetos em fase de pesquisa e desenvolvimento e uma participação mundial pouco representativa no contexto atual, destaca Figueiredo. “Apesar de atuarmos na produção de minério de ferro e outros recursos minerais tradicionais há décadas com níveis de produtividade elevados, não significa que teremos este mesmo sucesso em terras raras. Os processos de extração e processamento exigem pesquisa e adequação técnica destes projetos à estrutura geológica de cada reserva”, comenta.

A preocupação do consultor da KPMG é semelhante à dos demais entrevistados, pois “entre sair da fase de pesquisa, seguir para a etapa de desenvolvimento do projeto e, por conseguinte, o início da produção há um longo caminho. Projetos de mineração necessitam de desenvolvimento tecnológico, licenciamento, logística, e tudo isso pode demandar anos”, explica e reforça: “Os dados do Ibram apontaram também, que o setor planeja investir US$ 68,4 bilhões, até 2029, um aumento de 6,6% em comparação com a previsão de 2024 a 2028.”

“A projeção de aumento de investimento é alta, pois a complexidade do processo e as características da atividade de exploração de recursos minerais exigem um financiamento contínuo por longo prazo, o que é sempre um desafio para o setor de mineração. A primeira ação do negócio é avaliar o preço e a demanda, depois realizar um levantamento da capacidade de recurso para viabilizar, economicamente, a extração”, pontua.

Questões ambientais e de mão de obra

Além dos aspectos econômicos e estruturais, o sócio da KPMG enfatiza as questões ambientais, disponibilidade de mão de obra local e a variedade de fatores que podem impactar a extração. “Vale destacar que alguns Estados podem registrar aumento expressivo na demanda por profissionais especializados na área de mineração e de equipes capacitadas para avaliar os aspectos ambientais e de relacionamento com as comunidades no entorno do novo projeto para viabilizar o licenciamento e a execução de forma sustentável. Por mais que haja cuidado e regulação para reduzir os impactos de atividades de mineração no Brasil, há sempre algumas externalidades inerentes ao projeto que requerem o devido endereçamento porque as comunidades e as cidades têm de lidar com os benefícios, mas, também, riscos e impactos causados pela atividade mineral”, conclui Figueiredo.

Sartório também entende a necessidade de viabilizar mais projetos e investir na cadeia de valor para que o Brasil seja competitivo neste cenário a médio e longo prazos e capture um valor agregado maior que apenas exportar minério bruto. Para isso, será fundamental estruturar políticas de fomento, destravar licenciamento e atrair investimentos em tecnologia de processamento.

Consolidar-se como fornecedor estratégico de minerais críticos e sustentáveis, exatamente quando países e blocos econômicos buscam reduzir a dependência de poucos fornecedores e fortalecer o conceito de friendshoring, é uma chance expressiva para o Brasil. O consultor da EY lista entre as possibilidades para a mineração brasileira se posicionar na conjuntura global, além de reservas abundantes, “a matriz elétrica de baixa emissão, que nos permite oferecer ao mercado produtos com certificação de menor intensidade de carbono, o que pode resultar em prêmios de preço e contratos de longo prazo com indústrias de alta tecnologia.”

Para Sartorio, o caminho para colher esses resultados é permeado pela necessidade de “acelerar o mapeamento geológico do território; dar maior agilidade e previsibilidade ao licenciamento; criar instrumentos de financiamento competitivos em moeda local; investir em industrialização e processamento para capturar mais valor internamente; e adotar estratégias diplomáticas que garantam acordos comerciais e segurança de mercado. Se esses fatores forem bem endereçados, o Brasil pode não apenas aumentar sua participação no comércio mineral global, mas também atrair investimentos de alto impacto social e tecnológico.”

Elencando a Austrália como o maior produtor global de lítio, com extração de espodumênio a partir de depósitos em rocha dura, seguido da China, África e Canadá que possuem significativas reservas de espodumênio, George Albert Neves Viegas da Silva, gerente Corporativo de Suprimentos da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), fala sobre o domínio de países como Chile, Argentina e Bolívia na produção a partir de salmouras, um processo com custos mais baixos, mas que também possuem desafios ambientais, como o consumo de água. Nesse cenário – afirma Silva – “o Brasil vem crescendo no cenário mundial do lítio, mas ainda com uma fatia bem modesta, e o Vale do Jequitinhonha tem 85% das reservas de brasileiras”.

O gerente Corporativo de Suprimentos da CBL detalha o processo de produção realizado pela empresa na Mina Cachoeira, onde, nos pegmatitos litiníferos estão localizados depósitos de quartzo, feldspato, mica e o espodumênio, de onde é extraído o lítio. “Depois da lavra, os pegmatitos seguem para a usina de beneficiamento, onde o mineral passa por britagem, classificação granulométrica e concentração, utilizando meio denso, ore sorter ótico e raio x. 1/3 do espodumênio da Mina da Cachoeira é convertido em compostos químicos de lítio de alta pureza em refinaria própria e 2/3 são exportados”, resume.

Formação de alianças e parcerias estratégicas

Patricia Seoane, sócia e líder do setor de Mineração e Siderurgia da PwC Brasil, retoma o tema da concentração da produção na China, tendo como base recente relatório anual da PwC, o “Global Mine 2025: Concentrando-se no futuro”, estudo que analisa as 40 maiores empresas de mineração do mundo – incluindo companhias brasileiras – e destaca como a indústria nacional está se reinventando para atender as necessidades fundamentais da economia global.

Para Seoane, “com a crescente fragmentação geopolítica, países e empresas estão buscando cadeias de suprimento mais seguras e diversificadas” e também estão “formando alianças fora dos seus limites tradicionais, buscando habilidades técnicas e colaborando com governos para criar ambientes regulatórios favoráveis.”

“É um momento de desafios, mas também de imensas oportunidades, onde a colaboração entre todos os elos da cadeia de valor será a chave para moldar o futuro de uma economia mais verde e resiliente”, aponta a sócia e líder do setor de Mineração e Siderurgia da PwC Brasil.

A Mineração Taboca, como assegura Rodrigo Freitas, diretor de Engenharia e Serviços Técnicos dessa mineradora que “é a maior produtora verticalmente integrada de estanho do Brasil, da mina ao metal, e, por isso, controla toda a cadeia produtiva, garantindo rastreabilidade, confiabilidade e compromisso com a sustentabilidade.”

Essa mineradora está seguindo o caminho assinalado por Seoane, pois, em abril último, a Mineração Taboca, até então de propriedade da peruana Minsur, foi adquirida pela CNMC (China Nonferrous Metal Mining) por US$ 340 milhões. Desse modo, foi finalizada a operação de aquisição da operação que transferiu o controle da mina de Pitinga (AM), principal produtora brasileira de estanho, para a estatal chinesa.

“A chegada da CNMC à Mineração Taboca marca o início de uma nova era de crescimento, inovação e responsabilidade. Com décadas de experiência global em projetos de mineração e tecnologia de ponta, a CNMC traz consigo uma capacidade extraordinária de investimento e execução, que será decisiva para acelerar a transformação da Taboca em uma empresa modelo de classe mundial”, confirma Freitas, comentando que está em construção “um plano de expansão ambicioso, que engloba o aumento da vida útil da mina, a ampliação dos volumes produzidos e a diversificação de nosso portfólio com novos produtos de alto valor agregado. Embora ainda estejamos estudando em detalhes as possibilidades técnicas e operacionais, o potencial da nossa operação é imenso — e estamos prontos para explorá-lo com responsabilidade e visão de longo prazo.”

Um dos pilares dessa nova fase será o investimento robusto em exploração geológica, com o objetivo de ampliar significativamente nossos recursos e reservas, assegura o diretor de Engenharia e Serviços Técnicos da Taboca, destacando que “essa frente será essencial para sustentar o crescimento planejado e abrir caminho para novas oportunidades em mercados estratégicos, como terras raras, háfnio e zircônio, entre outros minerais críticos para a transição energética e a indústria de alta tecnologia.”

Os planos vão além, conta Freitas, e reforçam “nosso compromisso com os pilares que sustentam uma mineração moderna e legítima: Segurança, meio ambiente e comunidades. Estamos investindo em sistemas avançados de gestão de riscos, modernização das plantas e ações socioambientais que promovam desenvolvimento local e preservação dos ecossistemas.”

Apenas em 2024, a mineradora investiu US$ 982.586,00 em pesquisa geológica; US$ 422.000,00 em pesquisa tecnológica; US$ 6.947.230,00 em equipamentos; e US$ 2.805.528,00 em infraestrutura. Os valores programados para 2025 e em andamento compreendem US$ 488.000,00 em pesquisa tecnológica; US$ 3.961.760,00 em equipamentos; e US$ 1.649.726,00 em infraestrutura.

ETRs: quais são e onde se aplicam

Dezessete elementos químicos com propriedades similares encontradas em alguns minerais são listados como ETRs, envolvendo 15 lantanídeos, além do escândio (Sc) e do ítrio (Y). Hoje, pela aplicação encontrada, os principais são aqueles utilizados para fabricação dos ímãs magnéticos, mais especificamente o neodímio (Nd), praseodímio (Pr), térbio (Tb) e o disprósio (Dy).

Apesar de não serem escassos na natureza, os ETRs são considerados críticos devido à complexidade dos processos envolvidos em sua extração e seu beneficiamento.

Esses elementos são definidos como produtos secundários em depósitos de outros bens minerais, principalmente em depósitos de nióbio (Nb) e fosfato (PO4). Dos mais de 200 minerais que contêm ETR, apenas alguns têm potencial para formar depósitos econômicos desses elementos e são explorados atualmente: bastnaesita, monazita, xenotímio e loparita.

Com propriedades magnéticas, luminescentes, elétricas e catalíticas, os elementos de terras raras, embora assim denominados, são relativamente abundantes na crosta terrestre. No entanto, raramente os ETRs ocorrem concentrados em grandes depósitos, em geral estão disseminados entre outros elementos (cerca de 200 minerais contêm ETRs), e não é comum serem encontrados em concentrações suficientes para apoiar operações mineiras comerciais.