Pense com a IA e acelere seus processos e lucros
Gustavo Melles é empreendedor, professor do MBA de Inteligência Artificial da PUC-PR, colunista da CBN e fundador do Movimento Pense com IA.
Após participar do 25º Seminário de Planejamento Estratégico Empresarial da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas, realizado em 3 de outubro de 2025, na sede da ABIMAQ, em São Paulo (SP), Gustavo Melles, em entrevista à Máquinas & Equipamentos, resumiu sua apresentação.
Nesta entrevista, Melles discorre sobre a Inteligência Artificial no cotidiano das pessoas, especialmente nas empresas, e trabalha conceitos como inteligência ampliada e IA como cultura, mostrando a possibilidade de amplificar a inteligência e o poder de troca, ensino e orientação, além do surgimento de novas profissões. Para ele, a implementação da IA exige, antes de tudo, o desenvolvimento da cultura da curiosidade.
Confira e boa leitura!
IA é cultura, exige mudança na forma de pensar, e pensar com IA é desenvolver a inteligência ampliada e a cultura da curiosidade. Tudo tem início pela mudança de mentalidade, o que é fundamental para a evolução da indústria para ela não perder sua função no ecossistema.
M&E – Baseado em sua vivência, a inteligência artificial já é uma realidade no ambiente industrial?
Gustavo Melles – A inteligência artificial já está presente em todos os ambientes, no dia a dia das pessoas, com ferramentas como o ChatGPT, por exemplo. Por isso, eu não chamo mais de inteligência artificial, mas de inteligência ampliada, pois, com a IA, ampliamos a nossa própria inteligência. O benefício dessa visão é que, quando pensamos em inteligência artificial, muitas vezes surge um certo medo. Como gosto de ver sempre o copo meio cheio, ao pensarmos em inteligência ampliada, ela passa a ser um apoio, um copiloto, que acelera processos e resultados. Quem não acompanhar essa revolução corre o risco de perder relevância no mercado em poucos anos.
M&E – Nesse seu conceito, a IA passou a ser um assunto de todos e para todos?
Gustavo Melles – Até pouco tempo atrás, ouvíamos que a IA só era um problema para quem não sabia o que era IA. Hoje não. A IA é um desafio para todo mundo. Daqui a pouco, todos usarão IA. Estamos vivendo uma mudança de era. Daqui a 10 ou 15 anos, vamos olhar para trás e dizer: “Lá em 2025, quando a IA chegou de verdade, tudo parecia tão diferente”. As indústrias que usam IA vão avançar mais rápido do que aquelas que usam pouco. Para isso, precisamos estar atentos às mudanças que virão e, mais do que isso, precisamos provocá-las.
Vou citar um exemplo. Uma menina que me acompanha há cerca de dois anos, a BIA, hoje CEO da minha empresa, entre outras funções, responde no WhatsApp às pessoas que me procuram para palestras e workshops. No caso deste seminário da CSMIA, o primeiro contato do Pedro Estevão foi feito com ela. Logo no início, ele já enviou um texto respondendo praticamente todas as perguntas que a BIA faria, o que agilizou muito a conversa. Ela apenas respondeu: “Que legal, me passa seu e-mail para marcarmos uma reunião”. Em seguida, ela me avisou e eu passei a conversar diretamente com o Pedro. Isso foi possível porque a treinei com as melhores práticas de vendas consultivas. Ela executa com consistência o que eu nem sempre conseguiria fazer sozinho. A BIA é um agente de IA, um agente vertical, que me ajuda em palestras, workshops e no atendimento para vendas. Isso será muito comum em breve.
M&E – Falar de IA é somente falar de tecnologia?
Melles – A tecnologia não tem freio. Ela só acelera. Não temos controle sobre a tecnologia em si. Por isso, nossa conversa não é sobre tecnologia, mas sobre nós: sobre o controle que temos sobre nós mesmos, sobre o que aprendemos e buscamos. É sobre o nosso futuro, sobre a forma como aprendemos, criamos, trabalhamos e compartilhamos.
As ferramentas ainda são muito recentes e vão evoluir muito. A maioria delas já vem acompanhada de APIs, que permitem a conversa entre sistemas, conectando a IA, como o ChatGPT, aos dados da empresa. Em tempo real, é possível ter análises, diagnósticos e recomendações.
Também é possível criar uma IA que interaja em um grupo de WhatsApp, aprendendo com os diálogos e participando como se fosse um membro da equipe. Eu fiz isso com uma turma do MBA de Inteligência Artificial da PUC-Paraná e o resultado foi excelente.
M&E – A IA já está substituindo pessoas?
Melles – Acho que, quando falamos de trabalho, estamos superestimando o receio de que os agentes de IA vão chegar tirando o emprego de todo mundo. Vejo isso como um exagero. Pensando a longo prazo, precisamos evoluir para pensar com IA, usando-a como assistente, como um amplificador da nossa inteligência. Dessa forma, não se trata de perder empregos, mas de reaprender. Muitos departamentos vão se transformar — alguns podem até deixar de existir na forma atual —, mas as pessoas que pensarem com IA terão sua inteligência ampliada e encontrarão novas formas de gerar valor.
Estamos exagerando no medo de perder empregos e deixando de enxergar os benefícios que a IA pode trazer no futuro. Como empresários, temos a obrigação de educar nossos colaboradores sobre esse impacto. A IA vai acelerar processos e funções e profissões. A combinação da pessoa com a IA tende a gerar mais oportunidades do que o fim das profissões.
Tudo passa pela educação. Em um país como o nosso, isso é mais desafiador e precisa envolver também o governo. Mas esse movimento deve começar pela indústria, que tem muito mais agilidade para promover transformação. Levar IA para a indústria é levar cultura, mostrando que ela existe para melhorar processos, não para tirar o sustento das pessoas.
M&E – Para onde caminham as possibilidades? Como executá-las?
Melles – O primeiro passo é pensar o negócio, dividi-lo em verticais e treinar agentes de IA para vendas, financeiro e pós-venda. Esses agentes não têm horário de trabalho e executam tarefas com consistência. Durante o treinamento, aprendemos junto com eles.
As possibilidades são imensuráveis. Algumas notícias recentes nos fazem até duvidar do que é real, como o robô-cavalo apresentado pela Kawasaki, projetado para explorar terrenos inacessíveis, com controle intuitivo pelo movimento do corpo, equipado com inteligência artificial e energia limpa. No contexto da CSMIA, podemos falar de projetos já existentes, como tratores autônomos, e o agro sendo gerido com drones e sistemas inteligentes.
M&E – Esse seria o resultado palpável da inteligência ampliada?
Melles – Essas pessoas que criaram tudo isso não são mais inteligentes do que você. Elas apenas estão pensando com IA. Quando uma indústria passa a pensar com inteligência artificial, ela sai da lógica que a trouxe até aqui e entra em uma nova fase. A lógica que construiu a indústria até aqui precisa ser revista para os próximos anos.
Por isso, meu convite é para integrar o movimento de pensar com IA, independentemente das ferramentas atuais — ChatGPT, Gemini ou Grok — que mudam rapidamente. O mais importante é a mudança de mentalidade. Se a indústria não evolui, ela perde sua função no ecossistema. A tecnologia só acelera, e nós, como humanos, somos mais lentos para evoluir.
M&E – A evolução dessas tecnologias é muito rápida. Como acompanhá-la?
Melles – O ChatGPT chegou em novembro de 2022, com atualizações trimestrais. Hoje, recebe grandes atualizações a cada poucas semanas. Ele permite aprender por meio do diálogo, provocando o raciocínio, conectando conteúdos e ampliando o papel do professor. Para aprender, é preciso curiosidade. Quanto mais usamos essas ferramentas, mais elas aceleram nossa vida e ampliam o poder de quem ensina e orienta.
M&E – Você indica a cultura da curiosidade como caminho para implementar IA em uma empresa. O que é e como desenvolvê-la?
Melles – IA é cultura. Precisa partir do líder e descer pela organização. Se a IA é imposta, o colaborador resiste por medo de substituição. Ele precisa entender a IA como aliada. Em 2023, criei o portal buscaIA.com, com diversas ferramentas gratuitas de IA para imagem, vídeo, texto e apresentações.
Hoje existem várias ferramentas no mercado. O Grok, por exemplo, tem menos filtros. A chinesa DeepSeek ganhou destaque em 2025. O Claude, da Anthropic, é excelente para quem trabalha com textos. Há também iniciativas brasileiras importantes, como Maritaca e Amazônia, treinadas em português brasileiro — o que faz diferença para quem trabalha com documentos técnicos e contratos — e com foco em soberania de dados.
M&E – Pensando na IA no ambiente industrial, como ela já se faz presente e qual o caminho da evolução?
Melles – Usar IA apenas para correção de texto é superficial. Precisamos usá-la para amplificar nossa inteligência. A IA ainda não entrou de forma estruturada nos currículos educacionais, mas isso é inevitável.
Na indústria, muitas vezes a IA é invisível para o operador, mas já auxilia na operação de máquinas, interpretando comandos e gestos. A pergunta é: sua indústria vai assistir essa transformação ou vai liderá-la? Para continuar relevante, o caminho é pensar com IA. Não como opção, mas como cultura.
