Entrevista especial: José Velloso, presidente-executivo da ABIMAQ
Desde 9 de julho, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a sobretaxação das importações brasileiras para aquele país, o setor de máquinas e equipamentos, por meio de sua entidade representativa, a ABIMAQ, está de plantão em mesas de negociação em âmbito interno e externo, buscando minimizar os efeitos a curto e a médio prazos.
José Velloso, presidente-executivo da ABIMAQ, nesta entrevista, fala dos efeitos da medida adotada pelo governo estadunidense e das ações que a Entidade vem desenvolvendo, assim como das conquistas já obtidas.
Confira.
Máquinas & Equipamentos – Como o “tarifaço” afeta a indústria de máquinas e equipamentos?
José Velloso – O tarifaço dos Estados Unidos representa um choque de competitividade imediata: a sobretaxa (que chegou a 50% sobre todos os produtos da indústria de máquinas, somada a alíquotas anteriores) torna os produtos brasileiros substancialmente mais caros no mercado norte-americano e, portanto, inviabiliza vendas. Além disso, gera efeito negativo sobre decisões futuras, investimentos e cadeias de fornecimento (fornecedores que exportavam para clientes que atendem o mercado dos EUA também são negativamente impactados, ainda que em menor escala). Na indústria de máquinas e equipamentos – que em 2024 exportou US$ 13,2 bilhões, destes US$ 3,5 bilhões (26,9%) aos Estados Unidos – o impacto direto da imposição de tarifa de 50%, anunciada pelo governo norte-americano, sobre a receita líquida de vendas será de 7%, uma perda de R$ 19,25 bilhões.
M&E – Quais os segmentos mais afetados?
Velloso – Estudos e levantamentos setoriais colocam máquinas entre os mais atingidos pelo tarifaço do governo Trump depois da divulgação da lista de exceção. No universo da indústria brasileira de máquinas e equipamentos, todos os bens serão impactados negativamente, mas os segmentos de maior exposição são aqueles que têm maior intensidade exportadora: máquinas para construção civil, máquinas para alimentos, para petróleo, máquinas-ferramenta, além de bens transversais, como motores, compressores, válvulas, dentre outros.
M&E – Qual a participação dos EUA na balança comercial do setor? Dá para segmentar por setores representados pela ABIMAQ?
Velloso – Os EUA absorvem cerca de 26% das exportações brasileiras de máquinas, o que corresponde a aproximadamente US$ 300 milhões por mês (valor agregado de várias linhas de máquinas e equipamentos). Podemos segmentar essa participação por grandes famílias (como, por exemplo, máquinas agrícolas, máquinas para alimentos e bebidas, máquinas para mineração, equipamentos de manufatura, ferramentas e usinagem), e em cada uma delas existe exposição distinta: algumas linhas têm presença mais forte nos EUA, outras menos, como relacionado na questão anterior.
M&E – Quais os reflexos imediatos? E a médio prazo?
Velloso – Os reflexos imediatos foram as quedas bruscas nas encomendas feitas pelo mercado norte-americano. Recebemos inúmeros relatos de cancelamento e de adiamento de embarques e de renegociação de contratos. Paralelamente, observamos reduções de preços visando a minimizar parte da perda de competitividade. No médio prazo, a expectativa é de realocação de vendas para outros mercados e de ajustes nas cadeias de fornecimento. Mas há, ainda, o risco de redução de escala produtiva, com impacto sobre empregos e investimento se a retração for duradoura.
M&E – Que ações a ABIMAQ vem desenvolvendo para reduzir esse impacto?
Velloso – A ABIMAQ vem atuando em frentes coordenadas. Na articulação com o Governo brasileiro, para pleitear isenções ou exclusões e solução negociada com autoridades americanas; junto aos Governos estaduais pleiteou devolução de crédito de ICMS; com o Governo federal pleiteou linhas de crédito emergencial, revisão das normas do regime aduaneiro de drawback, ampliação do percentual de reintegra, alongamento dos prazos da operação de exportação e adiamento do prazo de pagamento de impostos federais. Já na articulação com autoridades do Governo norte-americano e clientes dos fabricantes de máquinas e equipamentos, atua sensibilizando-os sobre a importância da manutenção do comércio entre Brasil e Estados Unidos.
M&E – Quais os resultados já obtidos na defesa do setor representado pela Entidade?
Velloso – Há avanços práticos. A ABIMAQ conseguiu influenciar as decisões dos ministérios e obter compromissos de diálogo contínuo. O anúncio do Plano Brasil Soberano veio em linha com as expectativas do setor ao propor inúmeras medidas para mitigar os efeitos do tarifaço (drawback ampliado, linhas de crédito, ações de apoio, dentre outros).
M&E – Como minimizar os efeitos do tarifaço no setor? (medidas práticas para empresas e para a entidade)
Velloso – A ABIMAQ continuará pressionando por inserção das máquinas e equipamentos na lista de exceção junto ao Governo brasileiro e às autoridades americanas. Mas entendemos que somente uma política pública abrangente, de redução das assimetrias sistêmicas que a décadas anulam a competitividade da indústria brasileira, pode viabilizar a ampliação e a conquista de mercados, sejam eles domésticos ou externos.
M&E – Como o cenário atual afeta as previsões para o ano? Será possível ter resultados positivos?
Velloso – No agregado da economia, o impacto do tarifaço foi estimado pelo Ministério da Fazenda como modesto — por exemplo, projeção de redução de cerca de 0,2 pontos percentuais do PIB no horizonte até 2026 —, mas o efeito é muito mais concentrado e severo em setores específicos, como o de máquinas e equipamentos, em que as exportações para os EUA representam fatia relevante. Com as medidas de mitigação (linhas de crédito, drawback, negociações para exclusões) e redirecionamento de vendas, é possível atenuar a perda em 2025–2026; entretanto, obter crescimento de receita de exportação para compensar totalmente a perda do mercado americano em 2025 será difícil. Portanto, resultados positivos no ano podem ocorrer para empresas orientadas ao mercado interno ou com presença em outros países; para aquelas que dependem fortemente dos EUA, o cenário será de retração.
M&E – Quais as recomendações para as indústrias neste momento?
Velloso – Nossas recomendações envolvem diálogo com clientes, governadores e parlamentares do Governo norte-americano, levando argumento de que a cadeia de fornecimento brasileira é estável e confiável e que tarifas em geral não beneficiam as famílias e as empresas norte-americanas. Além disso, recomendamos a busca constante de alternativas de mercado. Entendemos que as empresas devem aproveitar o choque para acelerar a modernização e incrementar serviços digitais visando a ganho de produtividade e de competitividade.











