Retomada da produção industrial após paradas reflete positivamente

Após sucessivas retrações, a receita líquida do setor de máquinas e equipamentos apresenta o primeiro resultado positivo desde março. Essa alta está relacionada a fatores como a retomada da produção de importantes empresas que estavam paradas até junho. A informação é do Departamento de Economia, Estatística e Competitividade da ABIMAQ – Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos.

“Em julho, as receitas do setor somaram R$ 12,5 bilhões, crescimento interanual de 15%, já descontada a inflação. Ainda que a comparação tenha sido feita em relação ao fraco julho de 2019, o avanço deste mês sinaliza estabilidade no pós-pandemia”, reforça Maria Cristina Zanella – gerente do DEEC da entidade, durante entrevista coletiva à imprensa, realizada em formato digital, em 26 de agosto – lembrando que  “o resultado de julho colaborou para amenizar a queda do faturamento em 2020. Com isso, no acumulado do ano o setor registra R$ 69,2 bilhões, queda de -4,6% nos sete primeiros meses do ano”.

Conforme sinalizado pela ABIMAQ, o forte impacto da Covid-19 no setor de máquinas tem sido diluído ao longo dos últimos meses. “Ainda é cedo para falar em recuperação diante do tombo de -4,9% nas receitas este ano, mas a confirmação de que a pior fase da pandemia passou, poderá trazer maior confiança ao empresário de máquinas no segundo semestre”, sinalizou José Velloso, presidente executivo da entidade, estimando que “se o ritmo perdurar, o setor pode fechar em queda de -3,5%, basicamente em função das exportações, que estão muito fracas”.

As vendas internas foram o motor da expansão em julho. O crescimento de 29,7% frente ao mesmo período do ano anterior contribuiu para mitigar os últimos resultados negativos.

Assim, as receitas internas somaram R$ 48,4 bilhões entre janeiro e julho, uma queda de – 1,9% em 2020.  Por outro lado, as receitas de exportação do setor de máquinas e equipamentos apresentaram forte queda pelo quinto mês consecutivo. Em julho, as exportações em dólar retraíram -33,3% na comparação com o mesmo mês do ano passado, após queda de  -35,6% em junho e -34,7% em maio. Dessa forma, as receitas de exportação encolheram – 26,8% no acumulado de 2020.  A retração das exportações, observada desde o final de 2019, foi intensificada no cenário de pandemia. Entretanto, pesquisas mostram a recomposição gradual dessas industrias-clientes do setor de máquinas em terreno externo. Os próximos meses deverão apontar o desempenho da indústria brasileira na esteira da recuperação mundial.

A boa notícia é que o mês de julho retratou avanços na margem em diversos segmentos de máquinas. Em relação ao mês imediatamente anterior, o destaque nas vendas externas ficou para Componentes para a indústria de bens de capital (+60,3%). Todavia, a longa sequência de resultados negativos refletem na forte contração acumulada das receitas de exportação em quase todos os segmentos. Até julho, a queda acumulada foi mais forte para Máquinas para logística e construção civil (- 44,8%), Máquinas para bens de consumo (-28,3%) e Máquinas para a indústria de transformação (-24,6%). O único segmento a registrar crescimento este ano foi Máquinas para agricultura (+1,0%), diante do menor impacto da pandemia no setor agrícola comparado às atividades industriais. 

Quando analisada as exportações por destino, a forte queda é percebida de forma generalizada nos principais destinos de máquinas e equipamentos. No acumulado janeiro-julho, as vendas em dólar para os Estados Unidos caíram 32,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse baque é ainda mais forte dado a representatividade das exportações para aquele país. Nesta mesma comparação, as vendas para os países da América Latina retraíram 23,2%. Os países do Mercosul foram responsáveis pelo encolhimento de 12,7% das vendas na América Latina.   A menor disposição em comprar máquinas do Brasil também foi notada nos países europeus. Entre janeiro-julho, as exportações para a Europa recuaram 27,9%.

A lenta produção doméstica têm refletido nas sucessivas quedas das importações de máquinas e equipamentos. Contudo, em julho a queda das importações foi menos brusca, apontando para um possível cenário mais brando do que aquele nos primeiros meses da Covid-19. Em julho, as importações de máquinas e equipamentos recuaram 18,3% na comparação interanual, queda menos intensa que a observada em junho (- 32,5%) e maio (-30,6%). Considerando os resultados positivos do inicio do ano, as importações acumulam alta de +2,4% entre janeiro e julho de 2020.  A  penetração de máquinas e equipamentos está condicionada à retomada da indústria nacional, indicador importante para ajudar a mensurar o ritmo da atividade econômica no segundo semestre.

Quando analisada as importações por segmentos, o cenário é bastante heterogêneo. No acumulado do ano, os segmentos que mais importaram foram o de Máquinas para infraestrutura e indústria de base (+82,1%) e Máquinas para logística e construção civil (+2,6%). Houve também aumento na aquisição de Máquinas para petróleo e energia renovável (2,2%). A surpresa foi em relação ao segmento de Componentes para a indústria de bens de capital, que havia começado o ano com forte importação. A mudança de cenário aponta para uma queda acumulada nas importações desse segmento da ordem de -2,4% até julho. Os demais segmentos apresentaram queda nas importações na comparação com janeiro-julho do ano anterior.

Entre as principais origens das importações de máquinas e equipamentos, destaque para o crescimento dos EUA, Alemanha e Reino Unido. No acumulado até julho, as máquinas e equipamentos oriundas dos EUA cresceram 50,3%, o que faz com que o país seja o principal fornecedor de máquinas ao Brasil, representando 28,0% das importações totais (linha preta). Por outro lado, as importações de máquinas chinesas recuaram 4,5% no acumulado do ano, levando o país à segunda posição com 19,2% de participação (linha vermelha). As máquinas alemãs cresceram 14% até julho de 2020 e representam 15,2% das importações totais (linha azul). Em destaque, a penetração de máquinas oriundas do Reino Unido avançou 19% este ano, ainda que a representação do país seja pequena (2,5%). 

Em julho, o consumo aparente (total de máquinas e equipamentos absorvidos no mercado doméstico) cresceu 18,8% puxado, em grande medida, pelo desempenho das vendas internas. No acumulado do ano, o consumo registrou alta de 9,8%. Este crescimento pode estar relacionado às compras de máquinas reprimidas nos últimos meses em virtude da paralização das atividades. Isso é, a alta do consumo pode representar a recomposição tanto de parte da produção, como da comercialização de máquinas no país.  Os próximos meses serão essenciais para verificar se o avanço do consumo aparente permanecerá nesse mesmo ritmo ou se tratará de um evento pontual e passageiro. Esta variável indicará a disposição das industrias nacionais ao investimento no Brasil.

O desempenho da atividade produtiva é também medida pelo nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) da indústria. Após o tombo do NUCI no mês passado, em julho a capacidade instalada retornou à média de 74% do início do ano. Esse patamar está em linha com o NUCI observado em 2017.   A carteira de pedidos do setor permanece estável com média de 9,0 semanas para atendimento desde o início do ano. Em julho, houve uma pequena variação em relação ao mês imediatamente anterior, de 8,9 para 9,1 semanas em média. Por isso, mesmo que o setor já tenha chegado no pior momento da crise, ainda é cedo para falar em recuperação com dados de capacidade instalada e carteira de pedidos em níveis baixos.

Por consequência do baixo nível de operação da indústria de máquinas e equipamentos, o mercado de trabalho registrou encolhimento no número de pessoal ocupado. Em julho, o setor registrou 300,7 mil trabalhadores, uma redução de 2,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Entretanto, os resultados na margem são mais animadores. Houve 5 mil novas contratações em relação ao mês de junho, o que pode sinalizar parte da recomposição dos empregos perdidos com a pandemia. A tentativa de estabilizar a receita do setor de máquinas e equipamentos deverá refletir nos números do mercado de trabalho nos próximos meses.