A primeira edição do Hyvolution Brasil 2026 encerrou na quarta-feira (17 de junho) consolidando São Paulo como centro estratégico do debate global sobre hidrogênio e deixando um marco histórico para o setor no país. Realizado nos dias 16 e 17 de junho no Centro de Convenções do Distrito Anhembi, o evento reuniu 4 mil participantes e representantes de mais de 20 países, tornando-se o maior encontro do setor já realizado no Brasil.
Governo anuncia decreto regulamentador e leilões do PHBC
O momento mais aguardado pelo mercado veio no segundo dia do evento. O secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Carlos Colombo, anunciou durante sua participação no HySummit que o governo deverá editar o decreto regulamentador da Lei 14.948/2024 e dar início ainda este ano aos leilões do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixo Carbono (PHBC).
O PHBC representa o principal instrumento federal para estruturar os primeiros investimentos de larga escala na cadeia brasileira de hidrogênio: R$ 18,3 bilhões em cinco anos, concedidos sob a forma de crédito fiscal a ser usufruído pelas empresas entre 2030 e 2034. O volume será liberado progressivamente, com R$ 1,7 bilhão no primeiro ano do programa, chegando a R$ 5 bilhões em 2034. O primeiro leilão está previsto para ainda em 2026, após as eleições.
“Os leilões do PHBC serão destinados a projetos de maior escala. A legislação de 2024 já definiu setores estratégicos: cimento, fertilizantes, transporte pesado, indústria química e petroquímica. Nosso objetivo é posicionar o Brasil como um hub da descarbonização, tanto para a indústria brasileira como para a América Latina como um todo”, afirmou Colombo.
O secretário confirmou ainda que as divergências internas sobre o decreto foram superadas. “Acredito realmente que esse decreto saia e se dê sinalizações muito fortes de que as divergências internas que existiam foram superadas. O decreto permite que a gente possa iniciar o desenho prático desse leilão”, disse ele.
Abertura com sinais de alerta e chamada à ação
No primeiro dia, a cerimônia de abertura do HySummit estabeleceu o tom de pragmatismo que marcaria toda a programação. Fernanda Delgado, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), alertou para riscos concretos ao avanço do setor no país. “O mundo olha para o Brasil com expectativa. Porém precisamos ser francos, há sinais de alerta que começam a corroer as vantagens comparativas construídas aqui. Já aguardamos há dois anos os decretos reguladores para as leis promulgadas”, disse ela, elencando três prioridades críticas: o custo da energia, a completude do marco regulatório e a existência de offtakers firmes para viabilizar projetos.
Pierre Buchou, diretor do eixo de sustentabilidade da GL events França, contextualizou o momento global: “Os custos relativos aos combustíveis fósseis subiram cerca de 35%, como em 2022. Mas antes, havia cerca de dez países investindo no hidrogênio, enquanto hoje são mais de 100 países. Isso significa que muita gente está interessada no hidrogênio para ajudar a reduzir a dependência da economia do carbono.”
HySummit: 72 especialistas de 13 países e debate aprofundado
A arena de conteúdo HySummit fechou sua programação com 72 especialistas provenientes de 13 países, confirmando o caráter verdadeiramente internacional da primeira edição brasileira. Os painéis cobriram toda a cadeia de valor do hidrogênio, com ênfase nos desafios concretos que o setor enfrenta para escalar projetos no Brasil e no mundo.
O tema dos offtakers (compradores comprometidos de longo prazo) emergiu como questão central em múltiplos painéis. Luis Viga, Country Manager da Fortescue Brasil, responsável por projeto de hidrogênio verde no Complexo de Pecém (CE), pontuou que “o PHBC nunca foi pensado para resolver o setor, mesmo porque naquele momento estávamos competindo com US$ 1 trilhão de subsídios nos Estados Unidos. Mas era o melhor que o governo podia fazer naquele momento, e isso já está ótimo.” Para Viga, a previsibilidade necessária para o setor só pode vir de uma demanda pré-fixada por política pública, ao menos nos primeiros anos.
Fernanda Delgado resumiu o sentimento do mercado: “O offtaker hoje é a palavra mágica, é o ticket dourado para todos nós aqui, produtores ou participantes da cadeia de desenvolvimento do hidrogênio.”
Fertilizantes, SAF, navegação marítima e CCS em debate
A amplitude temática do HySummit refletiu a transversalidade do hidrogênio como solução de descarbonização em múltiplas cadeias produtivas.
O painel “Fertilizantes no Brasil: descarbonização e o papel do hidrogênio” reuniu Lieven Cooreman (CEO Global da Atlas Agro) e a ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu para debater como o Brasil, que importa mais de 85% de seus fertilizantes, pode escalar a produção doméstica com insumos de baixa emissão, reduzindo a dependência de importações e se posicionando de forma competitiva na descarbonização das cadeias agrícolas globais.
O potencial brasileiro na produção de Sustainable Aviation Fuel (SAF) foi discutido no painel “Brasil: o líder da América Latina na produção de SAF?”, com Michelle Carvalho (Petrobrás), Raquel Argentino (LATAM Brasil), Isabela Koletzke (H2Uppp) e Heloísa Borges (EPE), que analisaram as rotas de bio-SAF e e-SAF e o papel do setor de petróleo e gás nessa transição.
A descarbonização do setor marítimo foi abordada no painel “Navegação marítima e corredores de descarbonização”, com Sidnei Aranha (Autoridade Portuária de Santos) e Estela Luck (Canal do Panamá) discutindo o posicionamento do Brasil e da América Latina no desenvolvimento de corredores de baixa emissão. Os painéis liderados pela Associação CCS Brasil, entre eles “CCS no Brasil: oportunidades de investimento e caminhos para escala”, aprofundaram a integração entre captura e armazenamento de carbono, estratégias nacionais de clima e cadeias de valor de biocombustíveis, com a participação de Heloísa Borges (EPE) e moderação de Isabela Morbach, diretora executiva da CCS Brasil.
A dimensão financeira e regulatória ganhou destaque no painel “Mecanismos público-privados para acelerar o mercado de hidrogênio”, com Marco Diogo (Banco Europeu no Brasil), Carlos Antonio Costa (Banco Mundial) e Nicolas Masson (Comissão Europeia) debatendo como financiamento concessionado e garantias de risco podem destravar os primeiros projetos de grande escala, a partir das lições que Brasil e Europa podem trocar no processo.
Encontro global de associações setoriais e dimensão internacional
O painel “O encontro global das associações de hidrogênio” reuniu representantes de France Hydrogène (Jan-Erik Starlander), NLHydrogen (Tristan Seubers) e ABIHV (Fernanda Delgado), com moderação de Nuria Hartmann (Hinicio Chile / H2Chile), para um debate sobre o estado real dos mercados europeu e latino-americano e as oportunidades concretas de colaboração internacional. Encerrando a programação do HySummit, o painel “Equidade de gênero e inclusão social: oportunidades para promover uma transição energética inclusiva e equitativa” discutiu estratégias para ampliar a participação feminina ao longo da cadeia do hidrogênio e PtX, com Natalia Chaves (GIZ) e moderação de Icoana Lais, também da GIZ.
A presença de empresas como Andritz (Áustria), Casale (Suíça), Toyota (Japão), Aerzen (Alemanha), Vallourec (Brasil) e Ekium (França), além de representantes diplomáticos de múltiplos países e da União Europeia, confirmou o alcance internacional da edição. O Energy Industries Council, maior associação global de empresas provedoras do setor de energia, também marcou presença.
Um marco para o setor
A profundidade dos debates, somada à presença dos principais players nacionais e estrangeiros e ao anúncio do decreto regulamentador, converteram a primeira edição do Hyvolution Brasil em um marco institucional para o setor. Com os leilões do PHBC prometidos para ainda em 2026, o avanço regulatório esperado e um pipeline robusto de projetos em diferentes regiões do país, o hidrogênio de baixo carbono ganha condições concretas para escalar no Brasil.
Tatiana Zaccaro, diretora-geral da GL events Exhibitions, reforçou o significado histórico do evento: “A transição energética deixou de ser pauta do futuro para ser o tema do presente. O Hyvolution já se consolidou internacionalmente, e hoje damos um passo importante para estabelecer esse movimento no Brasil.”











