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ME entrevista José Velloso, presidente-executivo da ABIMAQ

Máquinas e Equipamentos: setor tem competitividade afetada por obstáculos persistentes

A ABIMAQ, como associação das indústrias de máquinas e equipamentos, engloba universo superior a 8.000 empresas, responsáveis por 400 mil empregos diretos, com salários 36% acima da média nacional. Na defesa dos interesses desse setor, a Entidade vem fazendo a sua parte, e algumas ações são resumidas nesta entrevista com José Velloso, presidente-executivo da ABIMAQ.
Confira e boa leitura!

Máquinas & Equipamentos – O ano de 2025 foi marcado por diversos eventos advindos da política comercial adotada desde a posse do presidente dos Estados Unidos, com reflexos que atingiram o Brasil antes mesmo do anúncio do tarifaço. Hoje, encontram-se em curso uma guerra tarifária e uma investigação por parte do United States Trade Representative (USTR). O que a ABIMAQ recomenda às empresas?
José Velloso
– A investigação conduzida pelo USTR sobre práticas comerciais brasileiras em áreas como serviços digitais, pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal é um ponto de atenção. Caso o órgão conclua pela existência de práticas consideradas “injustas” ou “discriminatórias”, poderá recomendar a imposição de novas tarifas contra o Brasil. A expectativa é de que o processo seja concluído entre maio e junho. Nesse cenário, a ABIMAQ recomenda às empresas exportadoras que acompanhem os desdobramentos da decisão com cautela, uma vez que a postura protecionista deve continuar presente no debate comercial estadunidense, mantendo o risco de novas restrições às exportações.

M&E – Em 17 de janeiro de 2026, os países do Mercosul e da União Europeia assinaram oficialmente o Acordo de Parceria entre os dois blocos, concluindo uma das mais longas e complexas negociações comerciais da história recente. Como o setor de máquinas e equipamentos participa do acordo?
Velloso –
Para a indústria brasileira de máquinas e equipamentos, os efeitos devem ser relevantes e ambivalentes. A ampliação do acesso preferencial ao mercado europeu pode abrir oportunidades de exportação, parcerias produtivas e fornecimento para projetos de infraestrutura, energia e transição energética, ao mesmo tempo em que a redução tarifária deverá intensificar a concorrência no mercado doméstico, exigindo atenção aos cronogramas de desgravação, às regras de origem e às condições efetivas de competitividade.
A ABIMAQ defende que a implementação do acordo seja acompanhada de políticas públicas que mitiguem assimetrias competitivas e estimulem a modernização do parque industrial. Mesmo antes da vigência plena, as empresas já são chamadas a mapear impactos tarifários, adaptar-se às exigências técnicas e regulatórias europeias, revisar estratégias comerciais e fortalecer práticas de compliance. A consolidação do acordo tende a influenciar decisões de investimento, padrões produtivos e o papel da indústria brasileira no comércio internacional nas próximas décadas.

M&E – Em âmbito interno, o debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 ganha força. A justificativa é que as novas tecnologias e supostos ganhos de produtividade justificariam a diminuição das horas trabalhadas. Como a Entidade enxerga essa possibilidade?
Velloso –
Indicadores internacionais desse avanço evidenciam o tamanho do desafio. Enquanto economias líderes operam com centenas de robôs e redesenham seus processos produtivos, o Brasil permanece na base da pirâmide tecnológica, com apenas 10 robôs por 10 mil trabalhadores, muito abaixo da média mundial de 162 e distante de países como Estados Unidos, Alemanha, China e Coreia do Sul.
Essa lacuna tecnológica é parte de um problema estrutural mais profundo: o reduzido estoque de capital produtivo por trabalhador. Estimativas comparativas indicam que o Brasil dispõe de apenas cerca de 35% do capital produtivo observado nos Estados Unidos, o que ajuda a explicar por que a produtividade do trabalho brasileira equivale a aproximadamente um quarto da norte-americana. Em um ambiente marcado por baixo investimento, custo de capital elevado e incertezas que inibem a modernização, a produção continua fortemente dependente do fator humano, o que limita ganhos de eficiência e torna arriscada qualquer redução de jornada dissociada do aumento efetivo de produtividade.

M&E – Dessa forma, pode-se considerar inviável discutir redução de jornada?
Velloso –
Diante desse cenário, impor a redução da jornada sem enfrentar previamente os determinantes estruturais da baixa produtividade nacional significa atacar o sintoma, não a causa. O verdadeiro caminho para jornadas menores e salários maiores passa pela expansão do investimento produtivo e pela modernização tecnológica. Um país em que a indústria de transformação possui maior participação de bens complexos tende a absorver serviços mais sofisticados e, portanto, remunera melhor a sua mão de obra.
Esse quadro estrutural ajuda a entender o desempenho historicamente baixo da produtividade no País, mantendo o Brasil em posições pouco favoráveis nos rankings internacionais. O Brasil ocupa o 100º lugar no ranking da OIT (Organização Internacional do Trabalho) da produtividade do trabalho. Reduzir a jornada sem alterar esse fundamento não configura política social sustentável: o acréscimo de custos de mão de obra para as empresas poderá, no médio e no longo prazo, resultar em redução de postos de trabalho em setores expostos à concorrência internacional, em razão da perda adicional de competitividade.
Avanços sociais duradouros não nascem de decretos, mas do aumento consistente da capacidade de produzir mais e melhor. Somente ao remover os entraves que limitam investimento, eficiência e formalização será possível reduzir jornadas de forma responsável, ampliando bem-estar sem comprometer emprego, competitividade ou crescimento econômico.

M&E – Crédito segue sendo de difícil acesso, dificultando a competitividade e a capacidade de investimento. A Entidade continuamente se reúne com o BNDES para discutir o assunto. Quais são as reivindicações?
Velloso –
Nas reuniões realizadas com o BNDES, são expostas as principais dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira, incluindo a de máquinas e equipamentos. O objetivo é identificar formas de atuação do Banco no apoio ao setor, que tem sua competitividade severamente afetada por diversos obstáculos persistentes. Entre os pontos críticos reiterados pela ABIMAQ, destaca-se o alto custo de capital de giro, investimentos de longo prazo, inovação, etc.

M&E – Para pequenas empresas, o contexto é ainda mais complexo… Como o Cartão BNDES pode contribuir para o setor de bens de capital?
Velloso –
A ABIMAQ tem ressaltado a dificuldade de acesso a crédito para pequenos empresários que necessitam adquirir máquinas de menor valor, sendo frequentemente forçados a comprar à vista por falta de linhas de crédito adequadas. A dificuldade de acesso a financiamento adequado para a aquisição de maquinário de ponta impede a modernização do parque industrial brasileiro e a capacidade de competir internacionalmente.
Continuamente, a ABIMAQ, focada no setor que representa, reafirma seu compromisso em buscar soluções para esses obstáculos, mantendo o diálogo com o governo federal e o sistema financeiro, com o objetivo de fomentar políticas de crédito mais favoráveis e impulsionar a modernização da indústria brasileira.