Header Ad

Artigo: Ganhar em rede, a nova fronteira da inserção internacional brasileira

Por Ingo Plöger – empresário e presidente da Associação Brasileira do Agronegócio  (ABAG) – e Frederico Lamego – doutor em Relações Internacionais e Assessor Especial para Assuntos Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica em sua política externa. A tradicional busca por inserção global exige agora abordagem mais sofisticada, a coordenação sistêmica e em rede. 

Em um cenário de fragmentação geopolítica, essa transição deixou de ser apenas uma escolha estratégica para tornar-se um imperativo de sobrevivência econômica e política. A arquitetura global atravessa uma reconfiguração profunda, onde o esgotamento dos consensos universais deu lugar a arranjos descentralizados. Nesse novo desenho, o poder não reside mais apenas em blocos monolíticos, mas na capacidade de transitar entre acordos sobrepostos. Não vivemos necessariamente uma desordem, mas a emergência de um multilateralismo fluido e pragmático, que exige do Brasil uma agilidade diplomática e institucional inédita para não ficar à margem das grandes decisões.

O acordo entre Mercosul e União Europeia surge como o nó principal desta teia de conexões. O tratado compreende mercados que somam um PIB nominal combinado superior a US$ 21 trilhões. Este marco ganha contornos de cooperação quando somado a projetos de integração regional. A visão de integração da América do Sul por meio de rotas transoceânicas, conectando o Brasil ao Chile e a outros parceiros do continente, exemplifica como a infraestrutura deve servir à rede. Ao viabilizar o acesso eficiente aos portos do Pacífico e fortalecer os laços regionais, o Brasil deixa de ser um terminal isolado para se tornar um “hub” logístico e comercial estratégico.

Essa convergência de interesses fica evidente quando observamos o movimento de grandes atores. A União Europeia já consolidou o Acordo Econômico e Comercial Global (CETA) com o Canadá, que elevou o comércio bilateral em mais de 30% nos primeiros anos de aplicação, e avança em negociações com a Índia, economia que mantém projeções de crescimento anual robustas entre 6% e 7%. Simultaneamente, o Mercosul busca trilhar o mesmo caminho com esses parceiros. Essa sobreposição revela um padrão: blocos distintos passam a dialogar com os mesmos mercados, criando uma rede de interseções que projeta um mercado potencial de 2,1 bilhões de consumidores, representando mais de 25% da população mundial.

A dimensão deste ecossistema exige velocidade de resposta proporcional aos desafios contemporâneos. É necessário aliar escala a mecanismos de” Fast Track” para a implementação de cooperações, acelerando a integração entre economias que partilham de padrões normativos e regulações semelhantes. A melhoria contínua dessa rede deve ser impulsionada por instrumentos de diálogo empresarial e, acima de tudo, por um ambiente construtivo e orientado para consensos por parte das lideranças governamentais e empresariais. Essa atuação em rede pressupõe, ainda, a manutenção de canais de comunicação fluidos, que permitam antecipar crises e alinhar expectativas de forma ágil. Tal lógica se estende ao campo das soluções digitais e das Parcerias Público-Privadas (PPPs), pois a integração digital e os investimentos em infraestrutura prosperam onde as legislações favorecem a transparência, o respeito aos contratos e os direitos.

O desafio brasileiro, portanto, não é mais a mera adesão formal a tratados, mas o reposicionamento proativo em uma arquitetura de influência dinâmica. A compreensão sistêmica desse novo arranjo pode favorecer a construção de cadeias de valor inéditas com escala, especialmente no campo dos biocombustíveis, dos minerais críticos e da transição energética, setores onde o Brasil detém posição estratégica nas reservas globais. É nessa rede em expansão que o Brasil definirá sua capacidade de liderar a distribuição da riqueza e da inovação nas próximas décadas.