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Novas formas de ação fundam-se em cooperação e cocriação

Essa metodologia de trabalho estimula a participação antecipada dos parceiros estratégicos, aproveitando o conhecimento de quem projeta, financia, fabrica, opera e mantém os ativos.

Da mesma forma que o País investe em regulação, boas práticas e segurança jurídica, mineradoras buscam projetos mais eficientes, sustentáveis e competitivos, reduzindo custos e vencendo exigências técnicas e regulatórias. O caminho adotado — aprovado em países como Canadá, Estados Unidos e Austrália — envolve a cocriação para elevar a competitividade industrial.

Como explica Bruno Vartuli, country manager da canadense Hatch, essa é “uma mudança cultural profunda. Mais do que uma visão, é a motivação e a maneira como estamos planejando e executando o futuro. A colaboração para promover a cocriação, a inovação e o desenvolvimento de soluções mais digitais e sustentáveis precisa vir acompanhada de muita diversidade de perspectivas, conquistada por meio de equipes diversas em termos de gênero, idade, capacidades e culturas, com foco em questionar o status quo e evoluir no que realmente faz sentido.”

Assim, o empreendimento passa a ser visto pela ótica do investidor. Equipamentos e serviços tornam-se um meio, e não um fim — conceito que acelerou o amadurecimento do mercado estadunidense.

O diálogo inicia-se nas etapas conceituais, integrando o conhecimento do fabricante à arquitetura primária da engenharia. Isso amplia a capacidade de avaliar, desde o início, automação, integração de dados e desempenho operacional, focando no processo do cliente.

Nesse método, explicita o diretor da Hatch, aplica-se a teoria das vantagens comparativas: “Buscar os melhores parceiros em sua atividade-fim para compor a equipe do projeto. Respeita-se o papel da engenharia integradora de conectar a visão de negócio pretendida pelo investidor ou operador com a viabilidade técnica, garantindo que o conceito pare em pé de forma sustentável, economicamente viável, com qualidade e estabilidade de produto. Ao mesmo tempo, amplia-se a capacidade de maximizar o retorno sobre o capital investido, reduzindo riscos e aumentando a previsibilidade dos empreendimentos.”

Cenário nacional — A dificuldade de implantação no Brasil ultrapassa a cultura empresarial e alcança o setor público. Apesar das limitações, há iniciativas regionais positivas e organizações pró-negócio em estados como Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Pará, informa Vartuli, ao garantir: “O governo federal busca acompanhar.”

Reconhecendo o avanço e os investimentos em tecnologia da indústria nacional, o executivo lamenta que, “quando um empreendimento vai para a fase de projeto, toda essa energia e esse conhecimento acumulado sejam achatados e reduzidos a uma especificação técnica e uma cotação comercial. Essa perda de conhecimento também representa oportunidades desperdiçadas de ganhos ambientais, como menor consumo de energia e água e menores emissões ao longo do ciclo de vida do ativo.”

Na cocriação, a engenharia integradora evita equívocos ao antecipar o debate: “Muito antes da compra do equipamento, cerca de 70% a 80% do projeto já foi decidido. Portanto, é necessário trazer esses fornecedores para a discussão de cocriação nas etapas iniciais, avaliando escala, customização, integração na planta e o fluxo de dados em salas de controle utilizando aprendizado de máquina e inteligência artificial”, preceitua o diretor da Hatch.

Garantia de retorno — A adaptação ao modelo ainda enfrenta resistências. Vartuli reconhece que “o ponto crítico para o fabricante de equipamentos e para a cadeia de suprimentos envolve a garantia de retorno comercial. O fornecedor questiona o benefício de investir seu capital intelectual e horas de engenharia nas fases iniciais do projeto se a aquisição do equipamento só ocorrerá anos depois, sem a garantia de que ele continuará no negócio.”

O vasto acervo operacional dos fabricantes raramente é explorado por serem acionados apenas na compra final. “Em projetos de terras raras, por exemplo, o tratamento de cominuição, moagem e separação de ultrafinos representa grande desafio técnico e financeiro”, diz Vartuli, justificando: “Se os fabricantes de equipamentos forem inseridos nas discussões iniciais para entender o desafio do processo do cliente, e não apenas para apresentar um catálogo de produtos, é possível desenvolver rotas de processo mais simples, baratas e viáveis.”

Novos players — A cocriação surge como diferencial competitivo ao promover parcerias estratégicas. Essa postura ganha força com as junior companies — atraídas por minerais críticos como o cobre —, que atuam com modelos enxutos e ágeis.

Para acelerar esse engajamento, engenharia e associações buscam integrar esses atores precocemente. Vartuli relata que “essas junior companies trouxeram a cultura de gestão da América do Norte, Austrália e Europa para o Brasil. Ao observar estruturas menores remunerando bem executivos e viabilizando projetos com celeridade, o mercado tradicional brasileiro foi provocado a se movimentar. Nessas estruturas, muitas vezes, uma equipe de 5 a 10 pessoas gerencia um projeto de BRL 1,5 bilhão a BRL 2 bilhões, exigindo uma interface executiva de alto nível para dialogar com construtoras, fornecedores, governos e reguladores.” Nesse modelo, “a engenharia integradora atua como orquestradora do ecossistema, conectando investidores, fabricantes, EPC/EPCM, operadores, mantenedores e parceiros tecnológicos em torno de um objetivo comum de geração de valor.”

O segundo motivador é de ordem geopolítica, impulsionado pela disputa por minerais estratégicos entre Estados Unidos e China. A legislação — assegura Vartuli — “não é um obstáculo para o engajamento preliminar com fornecedores. O gargalo é cultural, educacional e derivado de barreiras internas corporativas. A formação histórica da engenharia no Brasil consolidou um padrão operacional rígido.”

Soma-se a isso o compliance tradicional das mineradoras, que delimitou as áreas de atuação. “Embora esse compliance tenha valor, a sua aplicação não pode atuar como um bloqueio à geração de valor para o acionista”, ressalta o executivo.

Diante da tensão entre o faturamento imediato dos bens de capital e o longo ciclo dos projetos, Vartuli alerta: “a cooperação não pode depender exclusivamente de relações de confiança; ela exige mecanismos contratuais e financeiros estruturados de compensação para remunerar o valor intelectual entregue por cada participante da cadeia.”

Por esses motivos, entidades como a ABIMAQ atuam como catalisadoras ao promover a integração da cadeia. Para Vartuli, esses fóruns reúnem a indústria para fomentar negócios, debater contratações eficientes e trocar conhecimento técnico. “Essa articulação garante que o progresso metodológico alcance toda a cadeia de suprimentos de forma sistêmica”, comenta, ao concluir: “O próximo ciclo de investimentos da mineração tende a favorecer os projetos capazes de estruturar ecossistemas colaborativos, digitais e orientados à criação compartilhada de valor desde sua concepção.”