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Setor de bens de capital está pronto para a largada

Parceira desde a primeira hora, a indústria de máquinas e equipamentos também é protagonista

Para o setor de bens de capital, o atual ciclo de investimentos representa oportunidade concreta de participação na cadeia produtiva, desde a fase de exploração até o processamento e a industrialização dos minerais. Afinal, cada projeto, seja de expansão, seja de beneficiamento mineral, consiste em demanda concreta para a indústria de máquinas e equipamentos.

Nessa virada histórica vivenciada pelo Brasil, automação, conectividade, eficiência energética, ganhos em produtividade, redução de custos, precisão e eficiência nas operações no campo são necessidades prementes. Na solução, a tecnologia se destaca, pois as máquinas e equipamentos contribuem de forma substantiva para essa transformação.

A busca por eficiência caminha de mãos dadas com a evolução da pauta socioambiental. Reduzir emissões, otimizar a gestão de recursos e rejeitos e construir uma relação de transparência e responsabilidade com as comunidades deixaram de ser metas periféricas e viraram pré-requisitos para a sustentabilidade de todo o setor.

O cenário pode se fortalecer ainda mais se o País evoluir em política industrial e na cadeia de valor, indo além da destinação de capital para a extração primária.

Representatividade setorial

No debate que permeia o ambiente minerário e envolve todos os atores direta ou indiretamente vinculados ao setor, o protagonismo da indústria fornecedora de máquinas e equipamentos também é essencial. A ABIMAQ, como representante da indústria nacional de máquinas e equipamentos, tem feito a sua parte, não só acompanhando os movimentos e as oportunidades de mercado para as associadas, mas participando de ações junto ao Executivo e ao Legislativo, assim como com ministérios e organismos reguladores, defendendo a indústria nacional e a tecnologia das atividades que representa.

As ações em âmbito institucional são desenvolvidas a partir de Câmaras Setoriais, que consistem em fóruns que congregam as empresas associadas à entidade por segmentos de interesse. No caso da mineração, além do Conselho de Metalurgia e Mineração (CMM) e da Câmara Setorial de Cimento e Mineração (CSCM), outros grupos interfaceiam com a atividade minerária, como Máquinas Rodoviárias (CSMR), Bombas e Motobombas (CSBM), Equipamentos Pesados (CSPEP), Transmissão Mecânica (CSTM) e Equipamentos Hidráulicos, Pneumáticos e Automação (CSHPA).

O papel da ABIMAQ nas agendas de inovação e competitividade junto ao setor público é destacado por Maurício Garcia, presidente da CSHPA, e é expresso na reunião de fabricantes, integradores e empresas de automação, “na busca de políticas que suportem nosso avanço de forma consistente.”

Alexandre Misk Neto – coordenador do Conselho de Mercado de Mineração – defende a necessidade de construir uma visão nacional compartilhada e cooperativa sobre o papel da mineração no desenvolvimento do País, transformando as capacidades do País – recursos minerais extraordinários, uma indústria de máquinas e equipamentos diversificada, universidades reconhecidas, centros de pesquisa, profissionais qualificados e empresas mineradoras com presença e relevância internacional – em desenvolvimento.

A solução congrega mineradoras, indústria, universidades, centros de pesquisa, governos e comunidades em um sistema em que cada um “pode contribuir de formas diferentes e, ao mesmo tempo, compartilhar os benefícios gerados pela atividade mineral”, sugere Misk, convicto de que “essa integração permite desenvolver tecnologia, formar profissionais, gerar empregos, criar novas atividades econômicas e melhorar a utilização dos recursos naturais disponíveis.”

Na articulação do processo, o coordenador do CMM situa a ABIMAQ como entidade de representação e articulação da indústria de máquinas e equipamentos, que, “por meio do Conselho de Mineração e Metalurgia, da Câmara Setorial de Cimento e Mineração e das demais Câmaras Setoriais relacionadas à cadeia mineral, contribui para aproximar os diferentes atores, identificar desafios comuns e construir propostas que fortaleçam simultaneamente mineração e indústria.”

Mais do que discutir interesses isolados de cada elo da cadeia, precisamos buscar convergências em torno do desenvolvimento do Brasil. Os recursos minerais pertencem à nossa sociedade e, quando explorados de maneira responsável, eficiente e sustentável, podem gerar benefícios que ultrapassam a própria atividade mineradora e contribuem para o desenvolvimento econômico, industrial, tecnológico e social do País.

Retroalimentação – Lembrando que “o desenvolvimento tecnológico da indústria é, em grande medida, direcionado pelas necessidades de seus clientes”, o coordenador do Conselho de Mercado de Mineração corrobora a visão de que “à medida que as mineradoras passaram a demandar maior produtividade, segurança, eficiência energética, automação, precisão e controle dos processos, criaram-se novos desafios e oportunidades para os fabricantes desenvolverem equipamentos, componentes e soluções capazes de atender a esses requisitos.”

Nessa relação que se retroalimenta, a ABIMAQ, reunindo empresas de diferentes segmentos dessa cadeia de fornecimento, acompanha esse processo e trabalha para fortalecer a capacidade da indústria brasileira de responder às novas demandas do setor mineral.

Rodrigo Oliveira – presidente da CSCM – complementa essa visão ao lembrar que “a evolução da mineração brasileira nos últimos anos está intrinsecamente ligada ao adensamento e desenvolvimento da cadeia nacional de bens de capital. O setor de máquinas e equipamentos migrou de um modelo de fornecimento puramente mecânico e estrutural para a entrega de ecossistemas tecnológicos integrados.”

A demanda por amplificação da eficiência operacional impulsionou investimentos massivos em engenharia, manufatura avançada e integração de automação, com reflexos muito positivos nos fabricantes representados pela ABIMAQ. Os entrevistados concordam que a otimização e a digitalização da mineração não apenas elevaram a segurança das operações e minimizaram falhas e problemas em campo, como consolidaram a indústria nacional de máquinas como um setor de alta intensidade de P&D, capaz de projetar soluções para as condições geológicas mais diversas do País e do exterior.

Em outras palavras, a mineração brasileira deixou de ser uma atividade marcada pelo esforço físico intenso para se tornar uma das indústrias mais tecnológicas do País, define o presidente da CSHPA: “Essa virada impulsionou o setor de máquinas e equipamentos, que passou a desenvolver soluções mais robustas, precisas e conectadas. A mecanização abriu caminho para a automação e, mais recentemente, para a digitalização. Equipamentos hidráulicos, pneumáticos e a automação industrial com seus sistemas de controle deixaram de ser meros componentes mecânicos e passaram a incorporar sensores, eletrônica embarcada e conectividade IIoT, permitindo operações mais seguras, produtivas e previsíveis.”

A mecanização – detecta o coordenador do CMM – também contribuiu para afastar trabalhadores de atividades de maior risco, reduzir a exposição a ambientes insalubres e melhorar a regularidade dos processos. “Hoje, produtividade, segurança, sustentabilidade e tecnologia são atributos cada vez mais indissociáveis no desenvolvimento de equipamentos para mineração”, reforça ele.

Ciclo virtuoso – Essa transição da atividade mineradora para a alta tecnologia, segundo Marcus Peter Hess, presidente da CSTM, gerou um ciclo virtuoso: mineradoras soberanas em suas decisões de mercado exigiram equipamentos capazes de movimentar volumes brutais de carga com consumo energético otimizado. O setor de transmissão mecânica (redutores, engrenagens, acoplamentos e sistemas de acionamento) – que funciona como os músculos e articulações da automação da atividade minerária, assim como a indústria de máquinas, no geral – vivenciou uma evolução técnica sem precedentes, transformando o Brasil em um polo de engenharia de aplicação e robustez fabril.

Outro aspecto positivo dessa transformação descrita por Oliveira aponta para a compensação, mesmo que parcial, do “tão complexo Custo Brasil, pela via do ganho de produtividade interna, viabilizando operações que inicialmente não seriam factíveis.”

Os benefícios dessa transformação para o setor de máquinas e equipamentos também são elencados por Jackson Lenzi, presidente da CSBM, que os define como robustos. Para ele, “o aumento da segurança no trabalho, evidenciado pela redução expressiva no índice de acidentes, destaca-se como o ganho mais significativo. Paralelamente, fatores como o aumento da produtividade, a otimização na exploração dos recursos naturais, a sustentabilidade ambiental e a redução dos custos operacionais — impulsionados por uma maior confiabilidade operacional dos ativos — consolidam-se como conquistas comerciais e operacionais vitais para o segmento.”

No universo em permanente expansão, PME destacam-se

O número de mineradoras é determinado por vários indicadores e não há um consenso entre os dados, pois mesmo os emitidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM) e pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) variam conforme o critério de registro (titulares de direitos, produtores ativos ou empresas estruturadas).

A ANM registra anualmente entre 7.000 e 9.000 empresas e titulares ativos com recolhimento de CFEM. Do total de produtores, cerca de 3.000 a 3.500 são empresas formalmente estruturadas. A maioria (mais de 70%) atua no segmento de agregados para a construção civil (areia, brita e cascalho) e minerais industriais (como calcário), enquanto o restante opera na extração de minerais metálicos (ferro, ouro, bauxita, cobre) e fertilizantes. Em paralelo, o banco de dados do Cadastro Mineiro da ANM contabiliza mais de 130 mil processos minerários ativos, pertencentes a milhares de pessoas jurídicas (mineradoras, indústrias, pedreiras) e pessoas físicas, abrangendo desde a fase de autorização de pesquisa até a concessão de lavra, licenciamento municipal e permissão de lavra garimpeira (PLG).

Já o mapeamento do Ibram estima mais de 9.000 empresas mineradoras registradas, desde grandes corporações até microempresas de extração, de modo que as possibilidades de análise são variadas. Merece ser destacado que a ferramenta MAPA Ibram, plataforma pública de inteligência geoespacial mais abrangente e estratégica da mineração brasileira, identifica apenas 1.051 minas ativas, 1.068 empresas de mineração e 465 projetos em diferentes fases de desenvolvimento.

Independentemente do banco de dados utilizado, o universo é grande e permanece em constante desenvolvimento, seja no número de empresas, seja no de operações e minas ativas. No todo, as pequenas e médias empresas mineradoras (PME) destacam-se e, como enfatiza o presidente da CSCM, “são cruciais para a interiorização do desenvolvimento e para a exploração de jazidas estratégicas de menor escala, mas certamente enfrentam gargalos severos de crédito, escala e capacidade de investimento.”

Ao mesmo tempo em que é positiva, essa grandiosidade gera descompasso, inclusive com relação ao acesso a tecnologias, máquinas e equipamentos. Rodrigo Oliveira reconhece que a indústria de máquinas e equipamentos pode viabilizar o acesso tecnológico dessas mineradoras por meio da modularização e padronização de equipamentos. Dessa maneira, “soluções de alta complexidade desenvolvidas originalmente para grandes projetos são adaptadas ou providas em formatos mais compactos ou simplificados de menor Capex. Contudo, do ponto de vista estrutural e político, faz-se urgente o fortalecimento de políticas públicas de fomento — como linhas de crédito subsidiadas do BNDES (FINAME) voltadas à modernização tecnológica e programas de incentivo à transição tecnológica —, garantindo que as PME minerais ganhem eficiência sem comprometer sua saúde financeira.”


Definido como ponto crítico pelo presidente da CSTM, o acesso à tecnologia de ponta por pequenas e médias mineradoras esbarra diretamente no proibitivo custo de capital no Brasil, que inviabiliza o investimento de longo prazo em bens de capital. Nesse sentido, a indústria representada pela ABIMAQ também busca contribuir, lembra Hess: “Para que as PME acessem essa tecnologia, a indústria nacional tem feito um esforço heroico de engenharia financeira e modularidade de produtos, mas a solução real passa pela redução da burocracia e por um mercado de crédito livre e competitivo, permitindo que o investimento privado flua sem os entraves estatais.”

Garcia enxerga que, para as PME, a tecnologia vem sendo incorporada de forma gradual, por meio de soluções modulares, serviços de monitoramento remoto e contratos de performance. “Fabricantes e integradores têm oferecido sistemas escaláveis, que permitem digitalização progressiva sem exigir grandes aportes iniciais. Isso democratiza o acesso à automação e à conectividade”, assegura o presidente da CSHPA.

Concordando com a premissa de que o acesso ainda é bastante desigual, o coordenador do CMM interpenetra a realidade das pequenas e médias empresas, marcada pela necessidade de o investimento apresentar retorno rapidamente e ser compatível com equipes e estruturas operacionais menores. Para esse grupo, “a disseminação de sensores, sistemas digitais modulares, soluções em nuvem, equipamentos de menor escala e serviços de monitoramento vem reduzindo algumas barreiras de entrada e muitas tecnologias já podem ser adotadas por etapas, sem exigir a substituição completa de uma planta ou de uma frota”, assinala Misk.

“A indústria nacional de máquinas e equipamentos tem papel relevante nesse processo porque conhece as condições reais de operação dessas empresas e pode desenvolver soluções robustas, adaptáveis e economicamente acessíveis”, reconhece o presidente do CMM e indica como instrumento passível de acelerar essa modernização financiamento adequado, assistência técnica, capacitação de mão de obra e maior aproximação entre mineradoras, fabricantes, universidades e centros de pesquisa.

União – Outro caminho é sinalizado pelo presidente da CSCM. Trata-se do fortalecimento da união entre os institutos de pesquisa, as mineradoras de pequeno e médio porte, a academia e o desenvolvedor de tecnologia em equipamentos. Na mesma toada, Adriano Machado Meireles – presidente da CSPEP – defende o acesso via parcerias público-privadas, através de universidades, “uma vez que pequenas mineradoras não têm acesso aos planos de fomento do governo federal ou até desconhecem o processo.”

Para a Diretoria da CSMR, “a tecnologia está muito mais acessível do que há alguns anos. Os fabricantes oferecem soluções para diferentes perfis de operação, desde sistemas básicos de monitoramento até equipamentos altamente conectados. Além disso, linhas de financiamento, locação de equipamentos e novos modelos de negócio têm permitido que pequenas e médias mineradoras também modernizem suas operações.”

Quantificando que “pequenas e médias operações respondem por mais de 95% das empresas de mineração no Brasil”, o presidente da CSBM reconhece que essas empresas “também vêm registrando avanços consistentes em digitalização e automação, embora adotem uma abordagem distinta dos grandes players. Em vez de despenderem recursos em sistemas personalizados de desenvolvimento próprio, essas mineradoras recorrem a soluções escaláveis e padronizadas, conhecidas no mercado como automação de prateleira, que oferecem excelente viabilidade econômica.”

Nesse contexto, Lenzi entende como principal desafio, ao lado dos gargalos de infraestrutura local, “a escassez de mão de obra qualificada nas regiões remotas onde operam, o que impõe barreiras ao ritmo de implementação da Indústria 4.0.”

Problemas comuns, soluções semelhantes

Em comum, todas as mineradas, indistintamente, e até mesmo os demais atores da cadeia da mineração, enfrentam gargalos, que se resumem a infraestrutura e logística, caracterizado pela alta dependência do modal rodoviário e lentidão na expansão de ferrovias e portos elevam o custo do escoamento do minério e do transporte de máquinas de grande porte; custo Brasil e financiamento, marcados pela alta complexidade tributária, juros elevados para investimento produtivo e a assimetria na oferta de crédito de longo prazo em comparação aos concorrentes internacionais.

Associado a isto, a baixa introdução das mineradoras na bolsa brasileira é lembrada pelos entrevistados como inibidora de recursos para pesquisa e implantação. A esses pontos, agregam-se a segurança Jurídica e a morosidade e a imprevisibilidade nos processos de licenciamento ambiental que travam novos projetos de investimento.

No âmbito específico da indústria fornecedora um quarto elemento se faz presente: a concorrência desleal resultante da entrada de equipamentos importados sem a devida comprovação de conformidade com normas nacionais de segurança e sustentabilidade. Além disso, essa prática é desastrosa para o mercado, pois é a cadeia local de parceiros para o setor de equipamentos e soluções técnicas que garante todo o suporte pré e pós-venda, engenharia de campo e serviços.

“A presença geográfica dos fabricantes nacionais de máquinas garante um melhor desenvolvimento da rota processual das mineradoras, e com isto definindo a solução mais eficiente para cada processo. E além disto também garante a agilidade na reposição, atendimento emergencial e projetos de modernização (retrofit) da base instalada”, alerta Oliveira.

A argumentação do presidente da CSCM envolve, ainda, as dimensões continentais do País, os gargalos logísticos severos, a diversidade mineral e o potencial humano expressivo. Em um cenário com esses componentes, “ter uma indústria de bens de capital forte e instalada localmente é um elemento de segurança nacional que garante a continuidade das operações minerais, fortalece estas indústrias para exportações, e blinda o setor contra possíveis rupturas nas cadeias de suprimento globais.”

O equacionamento sinalizado pelos representantes das indústrias de máquinas e equipamentos para algumas dessas dificuldades está no fortalecimento das diretrizes da Nova Indústria Brasil (NIB), defesa de uma implementação neutra e desburocratizada da Reforma Tributária, harmonização regulatória no licenciamento ambiental e criação de mecanismos de isonomia tributária e fiscalização rigorosa para bens de capital importados.

Adicionalmente, para que essas tecnologias ganhem cada vez mais escala, Oliveira reivindica “ambiente político e regulatório garanta agilidade nos processos de licenciamento ambiental, crie incentivos fiscais para a comercialização de produtos derivados do aproveitamento de rejeitos e valorizem as empresas e mineradoras que efetivamente contribuem para este processo.”

Eletrificação, automação remota e dados: tendências

A evolução da mineração brasileira será ditada pela convergência entre a transição energética global, a capacidade de beneficiamento mineral a custo mais baixo, a autonomia operacional e a descarbonização. Como prefere Misk, a evolução não ocorrerá apenas nas grandes máquinas ou nos grandes projetos. “Ela também estará presente em equipamentos de menor porte, componentes, sistemas auxiliares, processos de manutenção e soluções desenvolvidas para necessidades muito específicas das operações.”

Sob a ótica econômica e estrutural, a tecnologia será a ferramenta indispensável para manter a competitividade do minério brasileiro frente a outros players globais, especialmente considerando os desafios logísticos internos do País.

Nesse sentido, o setor caminha para a eletrificação, automação remota e uso ostensivo de análise de dados para eficiência preditiva, que, para alguns entrevistados, pode ser entendimento como o momento da chamada Mineração 4.0.

A mineração caminha para um modelo em que eficiência e responsabilidade ambiental andam juntas, comemora o presidente da CSHPA, ao traduzir o conceito: “mais automação, mais dados e mais integração entre máquinas e sistemas. Operações remotas, equipamentos semiautônomos, plataformas de análise avançada e gêmeos digitais devem ganhar espaço, enquanto a sustentabilidade se torna eixo central das decisões de investimento.”

A indústria de máquinas representada pela CSCM continuará desenvolvendo equipamentos modulares, interoperáveis e de baixo consumo específico de energia e água, viabilizando o conceito de “mineração invisível” — com impacto ambiental mínimo, altíssima segurança e máxima geração de valor socioeconômico.

“Temos capacidade produtiva, engenharia e conhecimento para acompanhar essa transformação. O desafio é criar condições para que essa evolução tecnológica também aconteça dentro do País”, confirma a Diretoria da CSMR, citando como exemplo dessa expertise os equipamentos autônomos, “como caminhões de grande porte que operam sem motorista utilizando GPS de alta precisão, radar, câmeras e inteligência artificial. Essas novas tecnologias contribuem significativamente para a redução de acidentes causados por erro humano, para a sustentabilidade com menor consumo de combustível e para maior produtividade e padronização operacional.”

A Diretoria da CSMR agrega à lista as perfuratrizes autônomas, controladas remotamente ou totalmente automatizadas, que permitem uma perfuração mais precisa e menor exposição dos operadores a áreas de risco, e as escavadeiras e carregadeiras inteligentes, equipadas com recursos que aumentam a eficiência do ciclo de carregamento e reduzem paradas não planejadas, tais como sensores IoT, sistemas de posicionamento de alta precisão, controle automatizado de carga e monitoramento do desgaste dos componentes.

No caso desses equipamentos, um novo ator se materializa: o centro de operações remotas, no qual operadores controlam os equipamentos a distância, trazendo menor exposição ao risco, melhor atração e retenção de talentos e operação contínua em ambientes hostis.

Monitoramento preditivo – Para Lenzi, entre as soluções tecnológicas que ditarão o ritmo dos próximos anos, destacam-se “o monitoramento preditivo avançado de ativos; sistemas de detecção de fadiga em operadores; frotas autônomas compostas por caminhões elétricos fora de estrada; e a substituição gradual de equipamentos a combustão por frotas 100% eletrificadas.”

As empresas reunidas na CSTM – conta Hess – entendem como evolução tecnológica não apenas velocidade, “mas a eliminação do desperdício operacional e a maximização da vida útil do capital investido.” Desse modo, para elas, o futuro “caminha a passos largos para a digitalização profunda do chão de fábrica e das cavas, o que chamamos de Indústria 4.0 sustentada pela liberdade de inovação.” Ou seja, a previsão é de “consolidação de sistemas de transmissão inteligentes e monitorados em tempo real (IoT). Sensores preditivos em acoplamentos e redutores permitirão antecipar falhas antes que elas interrompam a produção.”

Ao fortalecimento contínuo das políticas públicas e ao investimento em tecnologias de mapeamento, o presidente da CSTM adiciona a articulação entre a comunidade científica, os órgãos governamentais e o setor mineral, bem como o alinhamento dessas iniciativas ao planejamento territorial. Esses fatores são “decisivos para transformar o vasto potencial geológico do país em oportunidades concretas de desenvolvimento econômico, social e ambientalmente equilibrado”, reforça o entrevistado.

Hidrogênio – A transformação do Brasil em um polo de “aço verde” de baixo carbono, aproveitando a matriz elétrica limpa do País, é citada pelo presidente da CSPEP, que agrega a utilização do hidrogênio verde na redução de minério de ferro, substituindo os combustíveis fósseis e criando uma rota de produção de aço 95% mais limpa.

Descarbonizar o segmento, para Meireles, significa “adaptar ativos, rever etapas produtivas, incorporar infraestrutura e investir em novas tecnologias”, ciente de que “tudo isso envolve investimentos em eletrificação, modernização de equipamentos, sistemas de controle, integração energética, digitalização e novas rotas de processo.”

E prestando um serviço desde já, Meireles avisa que “a CSPEP reúne empresas fabricantes de equipamentos para a produção de hidrogênio, as quais já apresentamos às principais entidades do setor como detentoras de tecnologias e processos eficazes para o avanço da mineração brasileira.”

União de opções com suporte institucional – O movimento pela descarbonização da atividade mineral é evolutivo e une a eletrificação, a eficiência energética e a utilização crescente de fontes renováveis e combustíveis de menor emissão, assim como tecnologias destinadas à redução do consumo de água, à disposição mais segura de rejeitos e ao aproveitamento de materiais anteriormente descartados.

Misk destaca que, para a ABIMAQ, “esse processo representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade para a indústria nacional. A transição tecnológica da mineração demandará novos equipamentos e soluções, e é importante que a indústria brasileira esteja inserida nesse processo desde sua concepção.”

Por isso – propõe Misk –, a transição não dependerá de uma única tecnologia: “Eletrificação, biocombustíveis, combustíveis de menor emissão, otimização de rotas, automação, recuperação de energia e aumento da eficiência operacional deverão coexistir.”

Em um contexto em que o objetivo deve ser reduzir as emissões sem comprometer a segurança, a produtividade e a confiabilidade das operações, a indústria de máquinas e equipamentos será necessariamente protagonista dessa transformação. Essa certeza do coordenador do CMM encontra base também no fato de que “a ABIMAQ acompanha e estimula o desenvolvimento das diferentes alternativas tecnológicas capazes de contribuir para esse processo.”

Sustentabilidade tem na indústria seu braço técnico

A agenda ESG e a readequação regulatória pós-marcos de segurança de barragens redefiniram a engenharia do setor. “A indústria de bens de capital é o braço técnico que materializa a sustentabilidade na prática”, assegura Oliveira.

Essa visão espelha o entendimento de muitos entrevistados, a exemplo de Hess, para quem “a mecânica de transmissão é a viabilizadora prática da sustentabilidade ambiental”, pois sistemas de transportadores de correia de longa distância – equipados com acionamentos de alta tecnologia, como os acoplamentos hidrodinâmicos e acionamentos sincronizados de alta potência – podem substituir, segundo Lenzi, “o transporte por caminhões fora de estrada (altamente poluentes e, em alguns casos, com alto potencial de acidentes de trânsito, mesmo sendo autônomos).”

Comprovando sua certeza, o presidente da CSCM afirma: “Nossas associadas desenvolveram soluções de ponta para processamento com a menor utilização de água possível (processamento a seco) e, em casos nos quais isto ainda não é possível, o empilhamento de rejeitos a seco (dry stacking), com filtragem de altíssima capacidade e sistemas de adensamento de polpas, além de tecnologias de reprocessamento para a economia circular (transformando rejeitos em insumos para a construção civil, infraestrutura e agricultura).”

Além da questão ambiental, a descarbonização é também uma exigência mercadológica e geopolítica, a ser atendida nos próximos cinco anos. Nesse quesito, a indústria de máquinas será a impulsionadora da transição para matrizes elétricas e de combustíveis limpos (como hidrogênio verde, biomassa e biocombustíveis) nos equipamentos de beneficiamento e de transporte. Equipamentos mais modernos consomem menos combustível, reduzem emissões, oferecem maior disponibilidade operacional e proporcionam mais segurança aos operadores.

Como o beneficiamento mineral é intensivo em energia, o foco dos fabricantes nacionais está no desenvolvimento de soluções técnicas com maior rendimento e menor pegada de carbono. Do ponto de vista político-econômico, o Brasil possui a vantagem competitiva de uma matriz elétrica renovável; cabe ao poder público e às cadeias produtivas estruturarem incentivos para que a substituição de equipamentos e frotas obsoletos por novas tecnologias nacionais de baixa emissão ocorra em ritmo acelerado.

Complementariedade – Para o setor de bens de capital, assegura Oliveira, “sustentabilidade e produtividade são indissociáveis. Equipamentos modernos são projetados para otimizar a recuperação metalúrgica, reduzindo drasticamente a pegada hídrica e energética por tonelada processada. Sob a perspectiva da competitividade sistêmica, a sustentabilidade tornou-se pré-condição para o acesso a mercados internacionais e financiamentos globais.” E complementa: “O setor representado pela ABIMAQ entrega soluções de alta confiabilidade operacional que reduzem o custo unitário de produção e eliminam riscos ambientais críticos, garantindo a viabilidade de longo prazo dos empreendimentos minerais no Brasil.”

Posição semelhante é expressa pela Diretoria da CSMR, que entende produtividade e sustentabilidade como objetivos complementares e interdependentes: “A sustentabilidade passou a fazer parte do desenvolvimento dos próprios equipamentos. A descarbonização já faz parte da agenda da indústria de máquinas e equipamentos. Esse movimento tende a se intensificar nos próximos anos, acompanhando tanto a evolução tecnológica quanto as metas ambientais assumidas pelo setor mineral, com o setor fabricante investindo em soluções capazes de reduzir as emissões ao longo da operação.”

Detalhando a posição dos seus representados, a Diretoria da CSMR cita os investimentos contínuos da indústria instalada no Brasil em engenharia, inovação e desenvolvimento tecnológico, como em motores mais eficientes, redução de emissões, menor consumo de combustível, sistemas inteligentes de operação e tecnologias que aumentam a produtividade com menor impacto ambiental. Afinal, “o objetivo é oferecer soluções que permitam às mineradoras produzir mais, com maior segurança e menor consumo de recursos.”

Economia circular – O presidente da CSBM insere a economia circular no diálogo ao defini-la como “um ponto muito relevante para a busca de maior sustentabilidade na mineração”. O entrevistado atribui aos fabricantes de máquinas e equipamentos a responsabilidade pelo processo, pois “essa visão estratégica envolve diretamente a remanufatura, reutilização e reciclagem de peças e componentes mecânicos de desgaste severo no fim de seu ciclo de vida útil”. Considera também “o controle das ações de governança e homologação ambiental sobre os subfornecedores das fundições e montadoras, garantindo que toda a cadeia de suprimentos contribua para o processo de mitigação de resíduos.”

A expectativa apontada por Lenzi para os próximos anos inclui uma evolução significativa nas políticas corporativas de logística reversa e ciclos fechados de fabricação, consolidando a transformação de peças descartadas em novos insumos e fortalecendo o equilíbrio entre a eficiência fabril e a mineração verde de baixo carbono.