Por Thiago Falda, presidente-executivo da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI)
Inovação no ambiente industrial e agropecuário caminha lado a lado com sustentabilidade. Em épocas de revisão de matriz energética, com biocombustíveis se destacando no cenário da redução das emissões. Especificamente na agropecuária, a biotecnologia favorece a retenção de carbono na terra e reduz a utilização de defensivos e fertilizantes químicos.
Neste artigo, Thiago Falda, presidente-executivo da ABBI, faz um balanço de 2025 e discorre sobre a bioeconomia como vetor estratégico para unir competitividade econômica, reindustrialização, segurança energética e preservação ambiental.
O ano de 2025 consolidou um conjunto decisivo de marcos para o fortalecimento da bioeconomia no Brasil, reposicionando o país como protagonista global em sustentabilidade, inovação biotecnológica e transição energética. O avanço regulatório, a estruturação de políticas públicas e a consolidação de novas governanças criaram as bases para um ambiente mais previsível e competitivo, impulsionando investimentos e acelerando a adoção de tecnologias de baixo carbono.
A regulamentação da Lei do Combustível do Futuro simboliza uma dessas mudanças estruturais. O Decreto nº 12.614/2025 estabeleceu o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural, definindo mandatos de biometano, responsabilidades e diretrizes operacionais, enquanto resoluções da ANP aperfeiçoaram os mecanismos de certificação de origem. No setor aéreo, o ProBioQAV avançou por meio da Portaria MME nº 879/2025, alinhando o mercado brasileiro às exigências internacionais de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e definindo metas de mistura que chegam a 10% em 2037. Esses movimentos consolidam segurança jurídica e sinalização de demanda, essenciais à expansão das biorrefinarias e à atração de capital.
No cenário internacional, a COP30 — sediada em Belém — marcou o reposicionamento estratégico do Brasil. O país liderou o lançamento do Bioeconomy Challenge, iniciativa global voltada à padronização de métricas, expansão de instrumentos de blended finance e harmonização de certificações de sustentabilidade. Outro marco foi a apresentação do Mapa do Caminho dos Biocombustíveis, uma orientação estruturante para rotas tecnológicas, padrões e metas para combustíveis de baixa intensidade de carbono, reforçando o papel do país como hub de descarbonização dos transportes. Ao mesmo tempo, a Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio) deu um salto institucional com a Resolução nº 7/2025, que estruturou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), composto por oito missões e 180 ações estratégicas a serem implementadas até 2035.
Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta importantes gargalos que dificultam sua escalabilidade. Entre eles estão barreiras tarifárias e não tarifárias para bioprodutos, falta de harmonização regulatória, ausência de taxonomia universal, pouca padronização internacional das certificações de emissões e baixa valorização dos atributos ambientais e sociais. Também persistem desafios estruturais: insuficiência de mão de obra altamente qualificada, escassez de recursos não reembolsáveis para pesquisa e desenvolvimento e falta de um programa nacional de P&D voltado especificamente aos gargalos tecnológicos da bioeconomia.
A biotecnologia figura como alicerce central dessa transformação. Plantas geneticamente modificadas e microrganismos editados oferecem maior produtividade, resiliência a estresses climáticos, resistência a pragas e redução no uso de insumos químicos. Bioinsumos e tecnologias de fixação biológica de nitrogênio diminuem a dependência de fertilizantes sintéticos e ajudam a descarbonizar a agricultura. Paralelamente, rotas fermentativas modernas permitem a produção de bioquímicos, enzimas industriais, combustíveis avançados e materiais renováveis, abrindo espaço para novas cadeias de valor.
Nesse ecossistema, o agronegócio brasileiro aparece como força estratégica, responsável por cerca de 25% do PIB nacional. O país é líder na adoção de culturas geneticamente modificadas, com taxas superiores a 90% em soja, milho e algodão. A bioeconomia reforça esse protagonismo ao proporcionar ganhos de eficiência, sustentabilidade e competitividade. Tecnologias como sementes resistentes, microrganismos benéficos e sistemas de produção regenerativos fortalecem o solo, minimizam emissões, reduzem custos e impulsionam um ambiente de inovação que integra universidades, empresas e agtechs.
O desenvolvimento da bioeconomia depende diretamente de mecanismos robustos de financiamento e incentivo à inovação. O FNDCT, por meio do programa Mais Inovação, executou mais de R$ 1,17 bilhão em 2024, apoiando projetos nas seis missões da Nova Indústria Brasil. Chamadas públicas dedicadas a aviação sustentável, bioeconomia, energias renováveis, mobilidade urbana, saúde e cadeias agroindustriais mobilizaram milhares de propostas e aprovaram projetos estratégicos para o avanço tecnológico e industrial do país. A Lei do Bem continua sendo outro pilar fundamental, oferecendo incentivos fiscais para empresas que investem em P&D e fomentando setores tradicionalmente ligados à bioeconomia, como alimentos, farmacêutico, papel e celulose e agroindústria.
Paralelamente, o BNDES intensificou seu papel na neoindustrialização verde: até junho de 2025, o banco já havia aprovado R$ 220 bilhões em financiamentos dentro da Nova Indústria Brasil, dos quais R$ 21,9 bilhões destinados exclusivamente a inovação — o maior volume da série histórica. Desse montante, R$ 7,7 bilhões foram direcionados a projetos no setor de biocombustíveis, impulsionados pelo Novo Fundo Clima. A modernização da infraestrutura e o fortalecimento das cadeias agropecuárias também receberam destaque, com mais de R$ 5,8 bilhões aprovados no Programa de Construção e Ampliação de Armazéns (PCA).
A trajetória da bioeconomia como pauta política e comercial avançou significativamente nos últimos anos. Embora seu conceito seja relativamente recente, suas bases remontam a décadas de evolução tecnológica — desde processos fermentativos até a engenharia genética. O marco global ocorreu em 2009 com o relatório The Bioeconomy to 2030, da OCDE, que reposicionou o tema como estratégia econômica. No Brasil, a institucionalização ganhou força a partir de 2024, com a Estratégia Nacional de Bioeconomia, seguida pela atuação da CNBio e pela priorização do tema no G20.
O impacto da bioeconomia na descarbonização do Brasil é decisivo. Em um país onde quase metade das emissões está relacionada à mudança do uso da terra e apenas 18% ao setor energético, a bioeconomia surge como rota indispensável para alcançar as metas climáticas, que incluem reduzir emissões em 53% até 2030 e atingir a neutralidade em 2050. De acordo com estudo da ABBI, as rotas integradas de bioinovação podem mitigar 550 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2050, gerar US$ 284 bilhões anuais em faturamento industrial e atrair mais de US$ 132 bilhões em investimentos acumulados.
A diversificação das cadeias produtivas também inclui mercados emergentes, como o de proteínas alternativas, que ultrapassou R$ 1 bilhão de faturamento no Brasil e cresce apoiado em tecnologias de base vegetal, fermentação e carne cultivada. Esse segmento representa uma extensão natural do agronegócio brasileiro, ampliando oportunidades de valor agregado, sustentabilidade e inovação.
Diante desse cenário, a bioeconomia se firma como vetor estratégico para unir competitividade econômica, reindustrialização, segurança energética e preservação ambiental. O Brasil possui biomassa abundante, expertise científica, infraestrutura agroindustrial e crescente apoio político. O desafio que se coloca agora é acelerar a implementação das políticas já estruturadas, superar gargalos históricos e ampliar a escala das soluções biotecnológicas — consolidando o país como líder global na economia de baixo carbono.










