A safra brasileira de grãos cresce ano a ano, a capacidade estática de armazenagem não avança na mesma proporção. Essa realidade é histórica e de solução complexa.
Prova está em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab): a capacidade estática do País fica entre 200 e 230 milhões de toneladas, deixando mais de 120 milhões de toneladas de grãos sem condições de serem armazenadas, pois, como mostra o 6º Levantamento da Safra 2025/2026 de Grãos da Conab, divulgado em 13 de março de 2026, os agricultores brasileiros deverão colher 353,4 milhões de toneladas de grãos na safra 2025-2026.
Um ponto que pode ser visto como positivo – apesar de ainda insuficiente – é o aumento do volume de armazenagem nas propriedades rurais, que saiu de 20,68 milhões de toneladas, em 2010, para 35,64 milhões de toneladas, em 2025, o que representa crescimento de 72,13% em 15 anos. Neste caso, segundo os dados da Conab, nos últimos 15 anos, a taxa média de crescimento foi de 3,69%. Embora seja maior do que a taxa média de crescimento da armazenagem no País (2,86%), ainda tem baixo impacto na redução do déficit.
Como explica Paulo Bertolini, presidente da Câmara Setorial de Equipamentos para Armazenagem de Grãos da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (CSEAG-ABIMAQ), esse descompasso é histórico e afeta diretamente a dinâmica do mercado físico e a formação de preços: “Enquanto a produção cresce, a armazenagem não acompanha esse avanço e, com isso, o déficit aumenta. Mesmo com a indústria adicionando cerca de 5 milhões de toneladas de capacidade por ano, o déficit segue crescendo, pois, a evolução é insuficiente para cobrir o incremento da produção.”
Defensor da armazenagem próxima à produção, de preferência nas proximidades da lavoura – a exemplo do que ocorre em países como os Estados Unidos –, Bertolini aponta como benefício a autonomia do produtor rural, que pode “definir seu fluxo de comercialização, armazenar parte da produção e aguardar momentos mais favoráveis de mercado para realizar a venda, com impacto em seus resultados financeiros”. Ele lamenta, contudo, que, mesmo com o crescimento ao longo dos anos, a capacidade nas fazendas represente apenas 16,8% da capacidade estática nacional.
A falta de financiamento e as taxas de juros elevadas configuram-se na visão de Bertolini – que também exerce a presidência da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) –, como os principais gargalos. Segundo ele, “a indústria de equipamentos é tecnologicamente madura e opera atualmente com média de 30% de ociosidade, o que é suficiente para atender rapidamente a um aumento da demanda.”
O cenário se agrava com a resistência dos bancos em conceder crédito, não apenas devido aos riscos, mas também por conta do aumento da inadimplência e das recuperações judiciais no setor agro. Além disso, o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) “é descrito como um financiamento complexo de ser contratado, além de praticar taxas que variam de 8,5% a 10,5% ao ano, dependendo do perfil do produtor”, lamenta o presidente da CSEAG, que complementa: “Nosso setor nunca enfrentou juros tão altos para investimentos em infraestrutura como agora.”
Outro ponto listado por Bertolini como dificultador do investimento é “o ciclo de baixa enfrentado pelo setor agrícola no cenário global de preços de commodities, enquanto os custos de insumos estão em alta por diversos motivos, incluindo a guerra russo-ucraniana e tensões geopolíticas como Estados Unidos e Irã. Esse cenário reduz a rentabilidade e o apetite do agricultor para investir em novos silos e armazéns.”
Diante dessa realidade histórica, Bertolini não acredita em solução no curto prazo. Ele acrescenta outro ponto que é positivo para o mundo, mas preocupante para o setor de armazenagem: “O Brasil ainda possui cerca de 40 a 45 milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser convertidas para a agricultura sem necessidade de desmatamento.” Ou seja, se a capacidade de armazenagem não crescer, o gargalo poderá se intensificar, dificultando o cumprimento “do papel do Brasil no combate à fome no mundo, pois é o único país em condições de aumentar sua produção de alimentos no volume necessário.”











